Cigarro, Pecado e Salvação

Parei de fumar. Ou pelo menos eu acho. Esse “hábito”, introduzido pelos indíos, seres sempre em paz e em harmonia com a natureza, se não fizesse mal, seria maravilhoso. Exatamente agora ainda estou em estado de penitência. Ou, se alguém preferir, estou pagando pelos meus pecados. Ou pelo meu pecado de ter começado – e continuado – a fumar. Vou em busca da salvação, tendo a academia como minha igreja… Aliás, minha eterna igreja, exceto que agora o pecado vai ficando longe. E a salvação será aquele dia em que eu terei tanta vontade de fumar como hoje eu tenho vontade de comer areia. Um estado de graça plena. Aliás, o sonho de todo fumante não é parar de fumar. É o de nunca ter colocado um cigarro na boca e de poder ver alguém fumando e sequer poder imaginar porque esse sujeito faz isso. Exatamente o que eu sentiria se visse alguém comendo areia.
Interessante que essa minha analogia, pelo menos na minha cabeça, funciona com o cigarro. Mas não consigo imaginar as noções de pecado e salvação em seus contextos originais. O problema não é o pecado. De fato, ele é a solução. Pois, como disse Al Satanás Pacino no (meu) cult “O Advogado do Diabo”, “I am a fan of man!!!” O problema é a salvação. Viver seria como estar em eterno e infernal estado de abstinência de nicotina – ou de pecado, originado de algo pouco claro. E o grande problema é justamente o ocaso: o que, quando e como seria este estado de graça religioso chamado de salvação?
No caso do cigarro, pecado, penitência e salvação são partes claras, imagináveis, atingíveis e, principalmente, a salvação pode ser gozada pelo sujeito que se salva. Mas no caso religioso, o que seria exatamente o gozo pelo atingimento do estado de salvação? O primeiro problema que grita aqui é que não há como saber se esse estado de gração foi atingido. Parece que, em vida, estaríamos sempre em penitência fugindo do pecado como o diabo da cruz. Deve então ser após a morte, o que supõe que haja algo aí e, mais problemático ainda, que haja continuidade da consciência. Bastante esquizofrênica essa hipótese, eu diria. Prá dizer o mínimo.
Não lembro bem quem disse que um sujeito religioso pode ser comparado a um fumante. Bem, eu tô fazendo a minha parte.
[]s,
Nypoa

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Chimpanzés, Aves, Sexo e Traição

Estava lendo ontem “O Terceiro Chimpanzé”, de Jered Diamond. No entanto, seu livro mais famoso, ao menos por aqui, é “Armas, Germes e Aço”, que descreve o início da história humana buscando responder a interessantes perguntas tais como “por que foram os europeus que dominaram a América e não o contrário?”. Em essência, é sustentada a tese de uma espécie de determinismo geográfico como o motivador fundamental. Coisas como o fato de não haver, na África, apesar da diversidade e fauna e flora, muitos animais e plantas domesticáveis. Ao contrário do que ocorreria com a região da Eurásia. Ele rejeita, com isso, a tese oposta, a de que haveria algo inato ou “racial” nos povos dominadores em relação aos dominados. Não deixa de ser uma espécie de tese politica e socialmente correta, mas achei bastante convincente o que li, ainda mais porque tudo é bem sustentado e fundamentado. Sugiro a leitura.

Já “O Terceiro Chimpanzé” busca explicar porque apenas esse terceiro chimpanzé – nós humanos, sendo, os outros dois, o chimpanzé típico e os bonobos, ou chimpanzés pigmeus – evoluiu da forma como evoluímos. E nossos irmãos mais próximos não. Ou melhor, não desenvolveram um intelecto complexo como o nosso. Em suma, ele agora volta-se à pré-história. E não mais à história, como em “Armas, Germes e Aço”. E ao falar dos três chimpanzés, Diamond dedica um bom espaço à questão da sexualidade. Mas esse também é o tema principal de “Sex at Dawn”, e obviamente, a comparação é inevitável. E agora, lendo a Folha de São Paulo pela internet, me deparo com uma notícia sobre “ciências” com o título “Passarinha trai por causa de genes herdados do pai“. Sempre os homens.

Em todos esses casos há a tentativa de buscar explicações a comportamentos sexuais, e que eu diria serem uma tentativa de obter referencias externos para descobrir quais comportamentos sexuais (humanos) são inatos ou naturais, e quais seriam culturalmente construídos. O grande problema nisso está, obviamente, na isenção do observador, que, obviamente também, somos nós. E então esbarramos no eterno problema de tentar erguer-se do chão puxando-se pelos cabelos: a busca pelo ponto de observação o mais isento possível. E tanto Diamond como os observadores alemães dos passarinhos mostram um viés flagrante. Neste caso, já começa pelo título: “Passarinha trai por (…)”. “Trair” é um termo carregado que já supõe uma espécie de pré acordo, e a explicação genética parace sugerir que, não fossem os gens, elas não “trairiam”. Pois, como lemos na notícia, “Saber o motivo de as fêmeas traírem seus parceiros monogâmicos sempre foi um mistério da biologia; já é consenso antigo o porquê de os machos pularem a cerca.”. O tal consenso diz que os machos – nós homens incluídos – queremos espalhar ao máximo nossos gens, ao passo que elas, muito mais conscientes e cuidadosas, devem pensar na prole e no custo “pessoal” envolvido nisso. Para as fêmeas então, a biologia não consegue entender porquê elas poderiam “trair”. E é isso que parece não ter explicação. Aliás, é esse o foco na notícia da infiel passarinha.

Mas afinal, como uma mulher pré-histórica poderia dar-se ao luxo seja de engravidar solteira ou de meter-se em relações extra-conjugais – sem antes ter a certeza de que o macho pré-histórico estaria apto e disposto a ajudá-la nos cuidados para com a prole num mundo tão hostil, ou mesmo por a perder essa proteção ao “trair”? Claro estaria então que as mulheres apenas traem quando os homens não correpondem. Se nós homens fôssesmos mais sensíveis, dedicados e carinhosos, o amor seria lindo como de fato deve ser. Sacanagem com essa passarinha, esses gens perversos a fazem trair. Nesse aspecto, em “O Terceiro Chimpanzé” Diamond comete esse mesmo erro, qual seja, o de idolatrar seu modelo e não seus dados. Como dito na reportagem dos passarinhos, a biologia simplesmente não entende porque as fêmeas traem.

Há de fato dois pontos aqui: primeiro, esta inexplicável traição. Segundo, identificar o que pode ser tomado como referência. Plantas, por exemplo, não parecem ter muito a nos contar sobre sexualidade. Insetos, répteis peixes e anfíbios, ainda que um pouco melhor do que plantas, também não parecem ser uma boa referência. Mas e aves, porque seriam melhores do que ratos? Ah! Por que em aves observa-se com mais frequência o comportamento monogâmico, ainda que não como o nosso, dado que os seres humanos são os únicos animais que apresentam esse comportamento de forma inequívoca, tão extremada e forte.

Chimpanzés e bonobos, estes nossos parentes mais próximos em termos genéticos – nossa estrutura genética difere da dos bonobos em apenas 1,5% – são más referências: eles apresentam um comportamento fortemente poligâmico (muitos machos para muitas fêmeas, e não no sentido de formarem haréns). Ou seja, formar pares de machos e fêmeas não é com eles. Para um bonobo, formar um “par sexual” é algo tão sem nexo quanto seria para nós “mijar-mos em pares”. Então as aves são, com certeza, melhor referência. Afinal, com algum esforço, ou então quebrando um ou outro paradigma, há de fato pouca coisa que faz com que os seres humanos sejam lá muito diferentes das aves afinal, não é mesmo?

Diamond traz outro fato que justifica descartar bonobos e chimpanzés como referências: nos praticamos o ato sexual privadamente e eles não. Estão pouco se lixando. As aves também, mas isso é só um detalhe. Fora isso, somos muito parecidos com as aves no que de fato importa: somos monogâmicos. O resto beira a irrelevância. E então, se a passarinha pudesse dar-se conta do que faz, ela jamais trairia seu marido. Como nossas mulheres e como os homens humanos conscientes e equilibrados. E Helen Fisher está coberta de razão,  não é à toa que ela é citada no fabuloso “Comer, Rezar e Amar”, escrito pela intelectual Liz Gilbert.

Ei, Dr. Diamond, nós também não fazemos algumas das nossas “necessidades fisiológicas” em público. Digo algumas, porque todo mundo espirra em qualquer lugar, tosse, come e bebe. Mas aquelas em que somos obrigados a expor nossas ditas partes íntimas, aí não. Talvez, veja bem, apenas talvez, haja aí algo em comum. Se mijássemos pelos dedos, talvez os banheiros na forma de recintos fechados tivessem um uso mais limitado. Nem aves, nem chimpanzés ou bonobos, nem cachorros, peixes e seja lá o que for parece dar muita bola prá isso. Luz amarela sobre esse argumento, Dr. Diamond.

Mas há outra hipótese tida como evidente que torna a “traição” feminina inexplicável: a necessidade de certeza da paternidade. De fato os machos, homens incluídos, ainda que tenham o “objetivo evolutivo” de espalhar o maior número de gens por aí, também exigem que os decendentes por quem eles dedicarão esforço sejam seus. Isso parece óbvio, não? Por um lado, ao ser pega traindo, o macho então a abandonaria pois passaria a suspeitar fortemente que aquela prole pode não ser sua. Por outro, se uma fêmea solteira engravidar, como o macho que fez sexo com ela poderá saber que são deles os descendentes, dado que ela poderia ter tido sexo com qualquer outro macho? É mulheres, a biologia diz simplesmente que vcs deveriam ter tanta vontade de trair quanto de comer pedra.

Uma explicação para esse comportamento está em que não necessariamente o macho disposto a dedicar seu esforço na proteção e cuidado para com a prole deve ser necessariamente o que dá sinais de ter bons gens. O que faria com que elas tentassem obter sempre o melhor dos mundos: o melhor protetor (o otário com quem vc casou) e o melhor reprodutor (seu vizinho garanhão). Mas que comportamentozinho sem vergonha hein! Bem, pelo menos em termos de caráter vcs seriam tão deploráveis quanto nós homens. Somos uma espécie encantadora!

O que logo salta aos olhos aqui é o nível especulativo a que se chega, o que parece fazer de nossos gens seres maquiavélicos capazes de impor estratégias não apenas ultra sofisticadas, como ainda fazem isso de forma subreptícea, inconsciente. Deus é foda mesmo. Talvez seja o caso de passar a dar mais amor aos dados e divorciar-se do modelo. A certeza de paternidade, por exemplo, é uma hipótese que está mais para uma teoria da conspiração do que qualquer outra coisa. Em primeiro lugar, ela exige que a relação causal entre sexo e reprodução seja óbvia e consciente, constatada desde os tempos em que tínhamos um intelecto levemente superior aos dos chimpanzés e bonobos. Toda criança e mesmo todo animal nasce sabendo disso, só pode. Mal éramos capazes de usar pedras e paus, mas, ao trepar, sabíamos: vou ter sexo com essa fêmea, obvimente de forma privada (para não ter vergonha e não broxar) ela será fertiizada e então sim, posso dedicar-me à prole. E ela idem.

É também interessante como  essa estratégia é burra. Imagine que há 20 machos e 20 fêmeas, que formam pares e vivem em uma comunidade pré-histórica. Todos os pré-humanos vivendo harmoniosamente, cuidando de suas casas, vendo TV enquanto cuidam de seus bebês. Então um macho vai ao supermercado natural caçar e, em lugar de voltar com uma peça de filé mignon, é o brontosauro que acaba levando o jantar prá casa. A fêmea estará fodida, pois seus vizinhos pré-históricos estão pouco se lixando. Afinal, nenhum macho vai cuidar daqueles bebês, uma vez que não são seus.

Ou então a fêmea, enquanto arruma a casa e cuida de seus bebês, é assaltada pelo brontosauro que estava à espreita esperando a polícia sair. Por que seus vizinhos correriam algum risco dado que devem priorizar a sua prole e casas, e que não está sendo ameaçada pelo bandido brontosauro? Quem, em sã consciência enfrentaria com uma pedra na mão um bicho que fosse como um leão de 3 toneladas? Não sei como sobrevivemos. Deve ter havido uma ajudazinha divina nessa história.

Ou talvez a certeza de paternidade seja uma hipótese besta mesmo. E, como é mais provável, culturalmente impressa em nós. E não algo genético. Nunca devemos nos esquecer que os seres humanos são um fiasco natural em termos de capacidade física. A cooperação deve ter sido sim a única alternativa, algo reforçado pelo nosso notório comportamento gregário. É muito mais razoável que os bebês humanos, dado o estúpido investimento parental que exigem, tenham sido criados cooperativamente. Ninguém era filho de ninguém, nem irmão de ninguém, nem casado com ninguém. Éramos todos primos, tios e sobrinhos. E namorados de todos. O amplo acesso a parceiros sexuais, sem disputas graves, funcionava como uma cola social.

Num ambiente assim, não enjoamos sexualmente de ninguém, algo que hoje nem o padre da esquina nega (veja, para todo homem e mulher estupidamente belo e atraente que vc tenha visto ou ouvido falar, tenha certeza de que há alguém de saco cheio de trepar com ele(a)). É que temos uma natural aversão sexual crescente a tudo que é vai-se tornando muito familiar, uma boa e simples maneira de evitar as consequências nefastas da endogenia. Freud que me perdoe, mas quem sente tesão pelo pai ou pela mãe? Por irmãos já é difícil também. Mas por um primo ou prima, até balançamos. Por um vizinho ou vizinha, bem…

Até que descobrimos a agricultura, imprimimos fortemente então a noção de posse e a religião passou a nos dizer que sexo é apenas para reprodução. Traímos por tesão mesmo, somos seres hiper sexuais, a maioria vivendo em uma eterna dieta de 200 cal.

Felicidades no seu casamento! Mas lembre-se, é necessário muito amor, esforço, carinho, dedicação. Porque a natureza simplesmente vai sabotar tudo, esteja certo disso. Boa sorte.

[]s,

Nypoa

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“Neologismos Americanos” ou a hipocrisia da liberdade – Folha de São Paulo

Reproduzo abaixo uma crônica publicada hoje, 28.06.2011, na Folha De São Paulo. Apesar do título, trata-se de um questionamento extrememente lúcido e interessante, sobre que se poderia chamar de a “hipocrisia da liberdade”.

[]s,

Nypoa

OUTRAS IDEIAS

MICHAEL KEPP – mkepp@terra.com.br

Neologismos americanos


Em filmes recentes, são as mulheres que fazem questão de ter apenas ‘amigos com benefícios’



NOS ÚLTIMOS anos, os americanos vêm criando novas palavras e frases para classificar amizades e sexo sem compromisso. Esses neologismos talvez reflitam as mudanças nas atitudes ianques diante dessas relações ou a criatividade verbal da cultura americana. É possível, também, que não reflitam nada.
A expressão “Best Friends Forever” (melhores amigos para sempre), usada pela primeira vez em 2005, no seriado animado “South Park”, indica amizade eterna, embora existam poucas desse tipo. Chamar alguém de “meu novo BFF” é quase uma garantia de rompimento rápido.
“Bromance” -fusão das palavras “brothers” e “romance-” indica o amor masculino não sexual. Críticos de cinema empregaram esse neologismo para descrever o vínculo entre um rei inglês gago e seu terapeuta de fala, em “O Discurso do Rei”, de 2010.
“Frenemy” (“iniamigo”) é um inimigo disfarçado de amigo. Exemplo: um colega de trabalho de quem você gosta, mas em quem não pode confiar por completo porque é um rival capaz de traí-lo. Os “frenemies” são comuns nos locais de trabalho dos EUA, onde a vida pessoal e profissional se entrelaça.
“Un-friend” foi a palavra do ano do “New Oxford American Dictionary” em 2009. “Un-friend” e “de-friend” definem a remoção de alguém da condição de amigo em seu site de relacionamento social. Os internautas diferenciam os “conhecidos virtuais” das pessoas que definem como amigos na vida real.
“Friends With Benefits” (amigos com benefícios) é sexo sem compromisso ou “amizade colorida”. Popularizado pelo filme epônimo de 2009, FWB veio substituir o vulgar “fuck buddy” (companheiro de trepada), lançado em “Sex and the City”, em 1999.
Em filmes recentes de Hollywood, as mulheres fazem questão de não ter mais que FWB. Em “Amor sem Escalas” e “500 Dias com Ela”, de 2009, e “Amor e Outras Drogas”, de 2010, as protagonistas exigem sexo sem compromisso, embora os caras com quem contracenam queiram monogamia.
Nesses filmes, as protagonistas percebem que uma relação comprometida é melhor que sexo casual, que a fidelidade traz mais benefícios que FWB. Será que esses filmes mostram que, apesar dos neologismos criados para descrever namoros não convencionais, os americanos ainda se apegam à convenção? Ou apenas mostram o que Hollywood tem de mais convencional -a recusa em abrir mão de uma fórmula de sucesso, o final feliz?

MICHAEL KEPP, jornalista americano radicado há 28 anos no Brasil, é autor do livro “Tropeços nos Trópicos -crônicas de um gringo brasileiro” (Record)

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Religião e a Relação Público-Privado

Este post, sob a forma de uma resposta ao Francisco Razzo, justifica algumas afirmações que eu havia feito em comentários. Quero aproveitar e agradecer ao Francisco pela oportunidade de debater com ele.

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E acho que há 2 temas aqui. Um, sobre minha afirmação “a religião só é defensável desde um ponto de vista existencial e íntimo. Num terreno franco e aberto, a religião é indefensável.”; e outro sobre a relação público-privado. Começo pelo 1o. porque é sobre esse aspecto da relação público-privado que estamos a conversar.

Vc diz:

(…) Caso assim fosse, o ateísmo também é defensável apenas do ponto de vista existencial e íntimo. Pago realmente pra ver quem consegue separar o íntimo do não-íntimo. Toda manifestação em terreno aberto é a manifestação da intimidade pelo lado de fora.”

Ok. Mas antes, alguns comentários preliminares. Veja que ao dizer isso vc como que dá um passo atrás e avalia a opção religiosa com algum distanciamento, colocando-a lado a lado com a opção ateísta. Independentemente de qualquer coisa, vc não está não neste exato instante emitindo uma opinião que podemos chamar de “religiosa”. Compare isso com o comentário da Sheilla, no mesmo post. A rta dela sim é religiosa, pois o que ela diz exprime bem o inescapável dilema religioso. E para avaliar e mesmo contra argumentar sobre o que eu vou dizer é preciso manter-se nesse distanciamento em que vc se coloca.

Como eu disse no post (e em outros posts também), a percepção religiosa necessariamente assume “a idéia de que há alguma mente ou princípio auto-circundante em adição às mentes dos seres humanos e demais seres – e que essa mente ou espírito é o fundamento da existência do universo, da ordem natural, de nossa existência, nossa natureza e nosso propósito.”. Mas eu tb disse no comentário anterior que “dado que eu não faço parte de qualquer plano cósmico (seja porque não vejo que haja algum seja porque eu decidi não fazer), o que alguém tem a me dizer sob um ponto de vista religioso?”

A religião não pode genuinamente aceitar minha hipótese, ou minha opção/escolha. Porque ou há um plano, e todos estamos nele, ou não há um plano, e tudo é uma tremenda ilusão. Não é possível achar que há um plano apenas para quem crê ou assume que há algum, porque isso implica necessariamente em não haver qualquer plano. Ora, se eu posso fazer o que me der na telha sem que isso traga qualquer consequência quanto à minha salvação, então do que estamos falando afinal? Por mais que o sujeito religioso diga que aceita minha escolha, ele se vê obrigado, por coerência, a me ver como um desgarrado, um herege. Eu não posso escapar impunemente. Em algum momento, em algum lugar, eu devo pagar pela opção que fiz (contraste o que eu digo com a rta da Sheilla). Ou seja, a religião exige, por hipótese, que eu esteja errado. E mais, não há como não me julgar, não há como não emitir um juízo de valor negativo sobre minha opção. Esse juízo é parte integrante do arcabouço ou perspectiva religiosa. Mas vamos além, pois até agora o que vc disse segue firme. Ainda que por ora apenas tateando a questão público-privado.

Há um argumento muito forte que a perspectiva religiosa tem uma tremenda dificuldade em lidar, que é o seguinte:

“deixe-me fazer o que eu julgar ser melhor para mim, caso isso em nada afete vc, nem te obrigue, nem te desobrigue a absolutamente nada; e nem tendo, isso que eu desejo fazer, qualquer reflexo na sua liberdade ou segurança individual.”.

O homossexualismo, por exemplo, baseia-se claramente nisso (e também outros temas dessa espécie), mas esse argumento é no mínimo muito forte. E sobre isso, vc diz:

“O ato homossexual é intransponível para vida pública, mas a homossexualidade não. Qualquer ato sexual é íntimo na sua banalidade, mas a concepção de sexualidade não.”.

Não vou aqui entrar no mérito específico desse tema, ainda que eu esteja a falar também sobre ele nesta resposta. Vc diz que a “(…) concepção de sexualidade não”. Independentemente da concepção em si, mas dado que isso “(…) em nada afetará vc, nem te obrigando, nem te desobrigando a absolutamente nada; e nem tendo isso (…) qualquer reflexo na sua liberdade ou segurança individual”, por que sequer preocupar-se com isso?

O problema em agir ou pensar genuinamente assim, desde uma percepção religiosa, é que isso significa, em essência, abrir uma brecha no plano. E nem que seja uma brecha íntima, pois no íntimo vc estará, ao fazer isso, sabotando o plano. Eu volto a isso adiante, quando falar sobre a relação público-privado.

Eu sei que vc está pensando o seguinte: ok, mas então o mesmo aplica-se a posição ateísta, por reciprocidade. Sim e não. Sim porque, se eu julgo não haver plano, então ninguém está sob plano algum. Mas a recíproca termina aqui. Como vc anotou aqui no seu site, o ateísmo é essencialmente niilista, ainda que num sentido um pouco mais frouxo, entendo eu. Vendo “do lado de cá”, a perspectiva religiosa é uma ilusão. Mas o posicionamento do sujeito ateísta é originalmente indiferente quanto a isso, tendo por base o argumento que eu apresentei antes. Mas não indiferente no sentido de não emitir um juízo sobre isso, mas antes indiferente no sentido de que, do fato de eu julgar isso uma ilusão, disso não se segue que eu deva (friso o “dever”) ou mesmo tenha qualquer motivo para digamos “agir”. E eu volto aqui minha analogia do gengibre, que apesar de ser de fato uma banalidade, mostra que não há essa relação de necessidade entre discordar-se de algo e agir positivamente contra esse algo. Em essência, se isso “(…) em nada me afetará, nem me obrigando, nem me desobrigando a absolutamente nada; e nem tendo isso (…) qualquer reflexo na minha liberdade ou segurança individual”, faça-se o que bem entender. E nada mais há a ser dito.

Voltando então a relação público-privado. Como eu dizia, a percepção religiosa encontra um dilema forte no argumento que eu uso acima quando o ato ou decisão for contrário ao plano. Porque isso significa submeter a vontade divina à vontade humana. Te confesso que desde uma percepção ateísta, o tema público-privado é algo abstrato e um tanto quanto insosso. Em si, ele diria mais respeito a uma espécie de habilidade interpessoal em mover-se no mundo, uma questão pessoal afinal. É mais uma questão de flexibilidade, maleabilidade, adaptação, inteligência ao conduzir sua vida do que propriamente uma questão fundamental em si mesma. Ainda que, é claro, “Toda manifestação em terreno aberto é a manifestação da intimidade pelo lado de fora.”. Mas eu – agora imbuído na perspectiva ateísta – vejo essa afirmação num sentido mais solto, mais amplo, sem implicações a priori, uma questão abstrata.

Como eu disse antes, a religião não admite que a vontade humana possa sobrepor-se à vontade divina. Ainda que isso não seja impossível, ao aceitar o argumento que eu coloquei, o sujeito religioso passa dar seu aval para transgressão. E, ainda que ele próprio não transgrida, isso em si já é uma transgressão. Mais do que isso, uma vez tendo assumido esse posicionamento, o argumento moral religioso perde completamente sua força. Ele passa, então, a ser uma opção íntima, seja uma intimidade pessoal ou de um grupo. Nesse cenário, a religião passa a ser exclusivamente uma questão de foro íntimo, e portanto, plenamente “defensável”, como eu havia originalmente falado. E, vendo de fora, isso torna-se algo banal perante o mundo, tão irrrelevante quanto o gengibre.

Mas, a transgressão não é permitida. Não há como genuinamente consentir algo que vá contra o plano divino. Por que, ainda que isso não afete pessoalmente, isso afeta a Deus. E, confesso, não me ocorre outra justificativa para a ênfase que vc dá à relação público-privado, à importância aparentemente inexplicável dada a questões como estado laico, símbolos religiosos em lugares públicos, homossexualidade e outros temas que são caros à religião e que podem perfeitamente ser respondidos com “uma vez que tudo isso em nada afetará vc, nem te obrigando, nem te desobrigando a absolutamente nada; e nem tendo isso (…) qualquer reflexo na sua liberdade ou segurança individual”, por que sequer preocupar-se com isso?”

E, exceto se for possível justificar que todos esses temas, no âmbito em que são defendidos e/ou apresentados, afetam, seja a liberdade ou a segurança, seja por impor obrigações, só resta, para rebater o que eu disse, retroceder e outra vez vestir o argumento religioso original.

Alguém poderia me contrapor dizendo que eu estou, em qualquer caso, impondo privações. Que eu estou cerceando o direito, digamos, da religião de tentar impor sua perspectiva. Que o que eu digo, afinal, volta à sua afirmação inicial, que “o ateísmo também é defensável apenas do ponto de vista existencial e íntimo.”. Mas acho que não. Simplesmente me responder assim cheira a um reductio. Trago então algo que vc também disse:

“No entanto, nem toda questão de gosto é limitada à intimidade banal”.

O grande problema está em decidir quando é um e quando é outro. O problema não está na relação em si, mas no critério utilizado. Um lado diz “deixe-me em paz e eu deixo vc em paz também”, e o outro responde “não posso, não tenho essa possibilidade”. Vendo tudo isso de fora, ou desde um ponto de vista humanista se alguém preferir, é difícil não ver um forte desequilíbrio.

E é muito complicado e bastante difícil justificar esse “desequilíbrio. Porque ele exige justificativas adicionais. Para justificar isso, é necessário que o plano seja não apenas tido como certo, mas deve-se também assegurar que o plano é mesmo esse que se tem em mente. E agora eu trago, então, o que brevemente disse na primeira resposta ao Jairo: “Vc sempre estará em pé de igualdade quanto a atingir essa noção, dado que ateus e religiosos dispõe do mesmo aparato intelectual. (…)”. É claro, esse argumento pode e deve ser avançado, e eu já fiz isso no meu blog. Em suma, ainda que vc queira referir-se ao plano divino, é muitíssimo complicado justicar que o plano é de fato o que se tenta impor. Porque, exceto se a revelação for aventada, então há que buscar-se a mensagem divina em algum outro lugar. E isso deságua no direito natural – que baseia-se  na observação de como o universo apresenta-se para nós – cuja justicativa última volta-se ao plano divino, sendo tautológica nesse sentido. Ainda, sobre isso, devo mencionar, ainda que en passant a já centenária falácia naturalística: do fato de que a natureza seja (ou pareça) assim, disso não se segue que as coisas devam ser assim.

Como eu disse, concordo que o ateísmo é niilista. Isso significa que a vida, desde essa perspectiva, é um eterno reconstruir, um eterno adaptar-se, tendo como foco único um sentido subjetivo para a vida. Em essência, buscando em si mesmo – e não me ocorre outro termo – a motivação para a felicidade. Quando eu disse que era um “niilismo mais frouxo”, qualquer viés pessimista dado a isso soa mais como uma manifestação de depressão do que propriamente como um argumento filosófico. Ainda que eu não possa afirmar se Nietzsche assume esse viés. E, finalmente sobre essa questão de sentido, reproduzo também o que eu havia dito naquela primeira resposta: “Só que ao supor um sentido objetivo para a vida vc cai num problema sem solução (o que mostra que essa é uma suposição impossível). Afinal, se todos morremos e tudo termina, quando chegaria a salvação? E mais, por que preocupar-se com isso afinal se tudo acaba mesmo? Caso contrário – supondo a vida eterna – uma vez obtida a salvação, receberemos então carta-branca do Todo-Poderoso para fazermos o que der na cabeça por toda a eternidade? Cadê então o “fundamento ontológico da moral objetiva”? Ou somos então todos Sísifos, empurrando a pedra montanha acima para vê-la rolar morro abaixo, e novamente empurrá-la para cima, indefinidamente, sendo a salvação como a cenoura na frente do burro?”

Por ora, essa é minha justificativa à indefensabilidade e minha opnião sobre a questão público-privado.

[]s,

Nypoa

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Resposta ao Jairo

Publico aqui minha resposta ao post “Resposta a Nypoa“, publicado pelo Jairo Filipe em seu blog. Apesar das naturais farpas que temperam estes debates, quero agradecer ao Jairo pelo espaço que ele concedeu por lá. E  também pelo esforço e tempo para fazer isso. Segue a réplica, no texto em azul.

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Jairo Filipe – “Deus como fundamento moral objectivo, não dependeria da crença em Deus mas, como é óbvio, da existência de Deus.”
N: – “Não. Depende de ambos e de mais alguma coisa.”
Resposta: Basta ler novamente o que escrevi. Se a questão é ontológica ( Existe ou não um fundamento moral objectivo? Esse fundamento é, ou pode ser, Deus? ), a questão é sempre a existência. E não a crença na existência. X como referência absoluta de Bem, depende necessariamente de X existir, e não se alguém acredita ou não em X.
Nypoa: Sobre isso, duas coisas. Antes, sobre crença e existência: como vc certamente vai concordar comigo, há muitas coisas que existem mas de cuja existência sequer  desconfiamos. Deus poderia muito bem estar nesta categoria. Logo, a simples “existência” não é suficiente. Além disso, como não há como provar nem a existência, nem a não-existência de deus (o que daria à crença o status de certeza), é preciso crer.
Sobre a questão ontológica – adiantando que questões ontológicas são uma ilusão – eu lembro (pois suponho que vc já o conheça) o diálogo Eutifron, de Platão, em que Sócrates pergunta: “Um comportamento é correto por que Deus o ordena, ou Deus o ordena por que é correto”? Se deus “ordena” por ser correto, então seja qual for o “fundamento ontológico” da moral, esse fundamento está acima de deus, não sendo portanto deus. Mas se é correto porque deus ordena, então estamos na mais absoluta discricionaridade divina. E torturar bebês (um exemplo que vc parece gostar) poderia ser “correto” caso X o “ordenasse”. E o Jairo então, ao torturar bebês, estaria agindo corretamente. Dica: São Tomás de Aquino já se debruçou sobre essa questão.
Mas essa questão está muito torta. O termo “existir” remete à existência empírica, algo aliás inescapável qdo fala-se de deus. Já “fundamento ontológico” é algo totalmente metafísico, e portanto incompatível com alguma “existência”. Deus como fundanento ontológico só pode ser pensando como o provedor do fundanento, mas não o fundamento em si. O que dá no mesmo, no final das contas. O problema é que entre o suposto fundamento ontológico da moral, e a moral em si, há um hiato intransponível, pois não há como identificar, deduzir e nem observar esse fundamento. Se por um lado não há como acessá-lo diretamente, por outro lado vc jamais saberá qdo chegou lá. Qdo eu disse que “fundamento ontológico é uma ilusão” é porque trata-se de uma perceção mística, misticismo este que é um traço comum a todas as religiões, inclusive a sua. Antes de me responder – caso vc o faça – investigue o que significa misticismo, pois não se trata de fadas e duendes.

N- Há uma sutileza aqui sobre o termo “objetivo”, termo este de uso comum mas cujo significado não é nada simples. A religião de fato pretende que a moral seja concreta, supondo então que sua objetividade viria como consequência necessária disso.
R: O termo “objectivo” neste debate refere-se a algo tão simples como A=A. Exemplo: torturar um bebé não pode ser imoral e não ser. Ou é, ou não é. Independentemente de discordarmos ou não que o é, ou de haver alguém capaz de torturar bebés (como há). Só há uma resposta certa. Não é apenas a “religião” a pretender que a moral seja concreta. Sam Harris, ateu, partiu para este debate do princípio de que a moral é tão concreta, que até pode ser actividade científica. Neste video, Craig também relembra a curiosa contradição de alguns ateus que abominam a apologia de uma moral objectiva, condenando-a moralmente em termos objectivos.
Nypoa: De início te digo que Sam Harris, Dawkins e cia. são filosoficamente nulos. Mas do fato de Harris estar burramente errado não se segue que Craig tenha qquer razão. O termo “objetivo” neste debate refere-se ao que o termo “objetivo” de fato significa. E não se trata de um princípio de não contradição: a objetividade é anterior a isso. E há poucas coisas mais estúpidas do que assumir que a moral pode ser objeto de investigação científica. Tanto ateus como religiosos (o que inclui toda a humanidade, diga-se) tem como ideal chegar a uma moral plenamente objetiva. O erro está em inverter esse processo, julgando que “objetividade” é propriedade essencial de alguma coisa. E sobre isso, tanto Harris como Craig erram redondamente.

N- Para a religião (e para o sujeito religioso), há uma fusão entre a constatação de que haveria preceitos morais concretos e a sua aceitação direta (a objetividade).
R: Antes de mais, o Nypoa levou a questão para a “religião” e para o “sujeito religioso”. Mas qual religião e qual sujeito? Não posso garantir que não exista uma religião e um sujeito religioso que imagine haver tal fusão. Mas no que se refere ao debate que eu comentei, a questão da objectividade  não foi defendida por Lane Craig ( o religioso, cristão, de serviço) como dependente da aceitação directa de preceitos morais. Pelo contrário, a existência de deveres e valores morais objectivos, não obriga nem depende de os aceitarmos como tais. A não-aceitação directa de deveres morais, isto é algo que o Nypoa parece ignorar, não anularia a sua objectividade. A existência de valores e deveres morais objectivos também seria a única maneira de alguém agir de maneira objectivamente errada, ao recusá-los.
Nypoa: Qual sujeito? O sujeito religioso. Aquele sujeito que assume a idéia de que há alguma mente ou princípio auto-circundante em adição às mentes dos seres humanos e demais seres – e que essa mente ou espírito é o fundamento da existência do universo, da ordem natural, de nossa existência, nossa natureza e nosso propósito. Qual religião? Todas assumem isso. Até porque, caso não assumam isso, e caso o sujeito religioso não se enquadre nesta definição, ele não será um sujeito religioso e tampouco se está falando de religião. Perceba que a figura de deus aqui foi generalizada, sendo o deus cristão apenas um caso particular.
Sobre o que pareço ignorar, vc parece não ter uma idéia muito clara sobre o que de fato significa “objetividade”. Porque sim, a não aceitação de algo de imediato retira desse algo a característica de objetividade. Por outro lado vc tem razão ao dizer que, ao recusar valores morais tidos como objetivos (recusar aqui significando ir contra, porém tendo consciência de que são os aceitos), é a única maneira de alguém agir objetivamente errado. Mas isso é redundante.
Sobre “objetividade”, prá não deixar a coisa assim tão solta, eu proponho um exemplo mais adequado do que o seu A-A: 5, como sendo o resultado da soma 2+3 (=5). Imagino que vc concorde comigo sobre isso ser objetivo. Mas por quê isso é objetivo? Veja adiante.

N – O argumento religioso aqui termina, tornando-se, para além disso, completamente circular. A religião – e nem tanto o sujeito religioso que argumenta, independentemente de sua capacidade intelectual, pois ele está submetido à percepção religiosa – não tem qualquer possibilidade de resposta à seguinte objeção: “ok, ainda que Deus exista e que esse(s) seja(m) seus preceitos morais, eu discordo fundamentalmente deles e particularmente de sua justificativa”.
R: Nypoa não identificou nem expôs para analisarmos aquilo que diz ser ” o argumento religioso”.  Ainda que provavelmente a minha percepção também esteja submetida a essa entidade una e indivizível chamada “a religião”, atrevo-me a dar uma resposta possível à objecção que o Nypoa misteriosamente levanta:
- Ok, ainda que tu discordes fundamentalmente dos meus preceitos morais e das justificativas que eu possa dar para eles ( o que não nunca foi o tema da minha análise à participação de Sam Harris); se Deus existe, possibilidade que tu admites, ou estamos os dois errados, ou um de nós está certo e o outro errado. A=A.
A “objecção” que o Nypoa levanta não faz sentido. Como os termos indicam, deveres morais objectivos não estão dependentes de consenso,  mas de objectividade. Não é necessário que todos concordemos sobre X ser imoral ou não, para X ser, de facto, imoral ou não. Quando Nypoa discorda FUNDAMENTALMENTE de um preceito moral defendido por outro como verdadeiro, ele já está a admitir a objectividade da questão. Sem a qual, ela não poderia ser discutida.
Nypoa: Respondo abaixo, dado que aqui inicia-se uma confusão que é continuada na sua réplica seguinte.

JF – “Se Deus existe, valores morais são objectivos. Se Deus não existe, valores morais não são objectivos. Resumidamente, era este o ponto de Craig. Que neste debate defendeu as duas condições como verdadeiras, e não a existência de Deus.”
N – “Algo “objetivo” é algo em relação ao qual não há qualquer possibilidade de oferecer-se uma dúvida inteligível. Por exemplo, o resultado de uma soma. Para que um valor moral seja então objetivo, ele deve estar imune à dúvida. Mas valores morais não são matemática, abrindo espaço para muitas objeções, perfeitamente inteligíveis.”
R: Algo objectivo não é algo em relação ao qual não há qualquer possibilidade de oferecer-se uma dúvida intelígivel. Antes pelo contrário, e o exemplo da soma demonstra-o. Todos tivémos de aprender a somar. Já todos errámos ao somar. Nem toda a gente sabe somar. A matemática não é fechada à dúvida, à objecção, à discussão, aprendizagem e descoberta. Caso contrário, para quê existirem estudos e investigações matemáticas? O resultado de uma soma pode oferecer-me dúvidas. Por isso talvez se tenham inventado coisas como máquinas de calcular, revisões de exames ou auditorias, não?  A objectividade não depende da ausência de dúvida ou de possibilidade de objecção. A objectividade não depende de conhecimento. Ser ou não ser é a questão. Só faz sentido colocar dúvidas e objecções, partindo do princípio de que há uma objectividade por descobrir, mas já existente.
Nypoa: Partindo desta sua réplica aqui, e assumindo que seu raciocínio estivesse correto (coisa que não está, e eu falo em seguida), então vc está dando um tiro no pé. O argumento que o Jairo ergue inclui o Jairo também. Pois o mesmo pode ser dito então da moral religiosa “objetiva”. Se até em relação ao resultado de uma soma o Jairo supõe que é possível haver dúvida, o que te garante então que torturar bebês é errado? O que garante que o Jairo “já aprendeu” sobre a moral (religiosa) a ponto de ter certeza de que não devemos abortar? Vc pode estar enganado, não? Vc sempre estará em pé de igualdade qto a atingir essa noção, dado que ateus e religiosos dispõe do mesmo aparato intelectual. Seguindo nesse beco-sem-saída, o máximo que vc conseguiria é assumir que a moral religiosa é objetiva, ou mesmo que deus pode ser seu fundamento. Mas a partir daí, nós 2 estamos em iguais condições sobre qualquer pressuposto moral ligeiramente mais aplicado. Se eu disser que o aborto é objetivamente correto, tudo o que vc poderá me responder é que acha que ele é objetivamente errado. E essa bandeira quanto à objetividade deságua então na mais absoluta esterilidade.
Mas voltando ao significado de “objetivo”. Diz o Jairo que “A objetividade não depende da ausência de dúvida ou de possibilidade de objeção”. Erro crasso. De forma um tanto simplificada – e lembrando o antônimo, “subjetivo” – algo “objetivo” é algo cuja constatação independe de alguma opinião particular, ou mesmo da opinião do sujeito. 2+3=5 é objetivo porque o resultado independe de opinião. E independe também de alguém saber ou não somar (aqui outro erro seu, anterior). Ainda que vc não saiba somar, isso em nada altera o resultado. E essa constatação é tão forte, que qquer dúvida sobre ela é ininteligível. Se alguém disser, por exemplo, que em alguma matemática paralela o resultado poderia ser qquer outra coisa, esse alguém deve, para que essa objeção seja legítima, mostrar como 2 + 3 pode dar outra coisa que não 5, e o que seria essa “matemática paralela”. Ou seja, objeções a isso são, em suma, um blefe.
Assim, ninguém põe em cheque o resultado de uma soma, a existência do sol e da lua, e outras coisas “objetivas”. A objetividade então é aquele estado místico da supressão completa da dúvida, aquele estado de graça onde todos estão de acordo. Mas, no momento em que alguém levantar alguma objeção inteligível e razoável, a objetividade cessa, ao menos momentaneamente. Veja que fora desse contexto, o termo “objetivo” perde completamente seu sentido, por mais que no uso comum tome-se “objetivo” como sinônimo de “clareza”, “especificidade”, “capacidade de síntese” e outros significados (errados). Em suma, caro Jairo, “objetividade” é o consenso absoluto motivado pela incapacidade de apresentar-se dúvidas inteligíveis sobre o que se observa ou constata. “Objetividade” não é uma característica apriorística, não é uma propriedade de nada. É uma constatação a posteriori. E, portanto, se a moral religiosa quiser ser objetiva, ela deve antes mostrar porque não há como contrariá-la. E, para isso, vc deve sustentá-la. Uma vez tomada como irrefutável, falamos de objetividade. E antes que vc tente responder a isso, te digo que eu não tirei isso da minha cabeça. Mas não acho que aqui seja lugar de ficar fazendo trocentas citações.

N- Mas, independentemente do valor moral específico que se queira falar, pressupor que ele é certo sob o argumento de que veio de Deus (e não importa a sofisticação que se coloque nessa argumentação), é algo tão frágil quanto argumentar que esse valor certo porque evoluímos assim. Deus não garante objetividade alguma, exceto se entre o preceito moral e sua aceitação, vc supuser um comportamento autômato. E portanto irracional.
R: Já vimos que Nypoa considera, de maneira errada, que a objectividade depende da ausência de dúvida. E também não parece ter compreendido a questão de Deus em termos morais, que é ontológica. Para ele, parece que só existira objectividade moral conforme defendida pelo teísmo cristão, se aceitássemos todos reger a nossa conduta pelos preceitos morais que, sem qualquer dúvida, adoptássemos consensualmente como verdadeiros. Mas isso não faz sentido. A existência de valores e deveres morais objectivos não depende de os aceitarmos. No caso de recusarmos agir de acordo com deveres morais objectivos, então eles continuariam válidos. A nossa conduta é que teria, poderia, ser considerada errada. Por ignorância do bem ou vontade de agir mal.
Nypoa: Claro que vc já pensa diferente agora. De qquer maneira, veja como “objetividade”, nessa sua acepção, é uma constatação totalmente inócua. Pois se é assim, que vantagem ou desvantagem há na objetividade da moral? Mais do que isso, mesmo sem perceber, vc funde “objetivo” com “correto”. Suas 2 últimas frases denunciam isso claramente. Se uma  moral objetiva não for necessariamente correta, por que sequer preocupar-se com objetividade? E se ela é correta, o que se espera é que a sigamos todos, não? O Nypoa sugere fortemente que o Jairo reveja esse tema com mais profundidade.

J: Pressupor que algo é moralmente certo porque veio de Deus, pode ser problemático ou uma resposta circular e impossível de validar. Como podemos saber que o valor moral veio ( ordenado?) por Deus? É difícil. Acontece que não estava em causa como saber se uma revelação divina é genuína. Para ajudar, relembro que o Argumento Moral pode-se resumir assim:
1.Se existirem valores e deveres morais objectivos, Deus existe.
2.Valores e deveres morais objectivos existem.
3. Logo, Deus existe.
Lendo a primeira premissa, está claro que ela é diferente de “valor/dever moral Y veio de Deus”. A questão não é se ou qual valor moral específico ( mandamento, por exemplo) veio ou não de Deus, mas se é possível a objectividade moral, sem Deus. Não sem acreditar em Deus; mas sem Deus existir. No debate entre Craig e Harris, ficou claro que os dois concordam com a segunda premissa. Ambos consideram que existem valores e deveres morais objectivos. A partir daí surge a discórdia: que tipo de natureza necessariamente seria o fundamento objectivo dessa moral? Foi aqui que Harris se espalhou: divagou pelo utilitarismo do bem-estar. Referência muito pouco objectiva, por definição.
Nypoa: Mas é claro que é possível uma moral objetiva, sendo deus algo absolutamente desnecessário para isso. Mas também claro está que isso é muito complicado. Harris disse bobagem, mas Craig disse uma bobagem de igual tamanho. E também que ambos escorregaram bastante nesse tema. Aliás, a afirmação “existe uma moral objetiva” é uma tremenda bobagem.

JF – “Nenhum argumento de Lane Craig defende a “Crença em Deus” ou a “Religião” como necessárias para uma moralidade objectiva. Pelo contrário, o teísmo cristão pressupõe que há coisas boas e más, independentemente de  acreditarmos ou não que o são…”
N-  Impossível. Até porque antes ele (Craig), segundo o texto, disse exatamente o contrário.
R: Exactamente o contrário seria : Não há coisas  boas e más, sem acreditarmos que elas o são. Craig não disse isso. Repito, nenhum argumento de Lane Craig defendeu a CRENÇA em Deus ou a “Religião” como necessárias para uma moralidade objectiva. E cito duas afirmações de Craig nesse debate:
-”(valores morais) não são dependentes da opinião humana e estão fundadas na natureza moral de Deus, sendo objetivos”
-”Dr. Harris diz “Você não precisa de religião para ter moralidade universal”. De novo, essa é confusão. É claro que não. Os nazistas poderiam ter vencido a segunda guerra mundial e imposto uma moralidade universal. O assunto não é universalidade, é objetividade. E minha posição é que na ausência de Deus, não existe uma boa fundação moral para a existência de valores morais objetivos.”
A questão moral debatida,  de maneira condicional por Craig,  foi Deus como Ser Necessário ou não para a moral ser objectiva. Não foi defendida como necessária a adesão a uma religião ou crença em Deus para a moral SER de determinada maneira. A condição que Craig apresentou foi esta:
p1) Se Deus existe, então existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo;
(p2) Se Deus não existe, então não existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo;
A condição defendida como válida não foi:  se acreditarmos/ não acreditarmos em Deus.
Nypoa: Sei. Se é assim, o que leva Craig a fazer tal afirmação? Que sentido há nisso? Eu gostaria que vc me justificasse então, dentro do ponto de vista de Craig (dado que ele também parece não ter uma noção muito clara do que seja “objetividade”) que diferença há, para qquer efeito prático, assumirmos que há (ou que não há) uma moral objetiva. Não é preciso crer em deus, basta que ele exista, e há uma moral objetiva. Ótimo. E daí? Essa moral pode estar certa ou errada, não temos acesso a ela, podemos seguir discordando e em igualdade, dado que nem ateus, nem religiosos, têm algum acesso privilegiado a essa tal moral. Logo, qual a relevância disso? E por que então a religião brada que é a única capaz de justificar uma moral objetiva dado que isso nada diz? Que diferença haveria, dado que disso nada se segue, entre uma moral objetiva e uma moral “azul”? Complicado isso, não caro Jairo?

N- Ainda, se Craig disse isso, eu concordo em 100% com ele. Há sim, coisa boas e coisas más. Mas essa constatação é absolutamente irrelevante em qualquer aspecto, pois ela em si em nada ajuda na identificação de tais coisas.

R: Então talvez também fosse interessante ver Nypoa a arregaçar as mangas e a demonstrar que existem, realmente, coisas OBJECTIVAMENTE boas e más, independentemente de Deus existir ou não. O tema do debate. A afirmação “Há sim, coisas boas e coisas más”, ao contrário do que Nypoa diz, é muito relevante. Ouvindo-a, coloca-se imediatamente a questão: como podem existir coisas boas e coisas más em termos objectivos? Nypoa não respondeu e, pior, parece nem ter reparado nessa questão que a sua afirmação imediatamente levanta.
Nypoa: Acho que o Nypoa respondeu agora. As coisas não são a priori nem boas nem más. A constatação sobre algo ser bom ou mau é uma conclusão obtida a partir da avaliação e justificativas sobre porquê algo deve ser considerado bom ou mau. E “bom” ou “mau” vai sendo carimbado à medida que fatos que exijam um juízo moral, surjam. E isso vai mudando com o tempo. E algo será “objetivamente” bom no exato instante em que ninguém opuser qquer dúvida minimamente razoável ou inteligível sobre isso ser “bom” ou “mau”,  gostem, a religião e o Jairo, ou não.

Para identificar coisas como boas ou más, que não era o tema do debate, é muito relevante se essa identificação pode ser, com fundamento, alcançada de maneira objectiva. A veracidade da afirmação “há sim, coisas boas e coisas más” seria fundamental para a possibilidade de uma identificação objectiva de tais coisas. Não havendo coisas boas e coisas más irrelevante seria, e também perda de tempo, andarmos a discutir se determinado acto é moralmente bom ou mau. Então, há que não colocar a carroça à frente dos bois.  Há coisas boas e más, objectivamente? Com que fundamento? Era este o ponto de partida do debate.
Nypoa: O raciocínio do Jairo aqui comete o “pecado moral” da religião, que é (a ilusão de) jogar para fora do sujeito que julga o aspecto moral de algum fato, a responsabilidade sobre a decisão moral (essa afirmação é outra isca com um anzol para o Jairo morder). O ponto de partida do debate entre Craig e Harris, dado a rasura filosófica, já é um ponto de partida errado.

JF- “(…) O facto é que o ateísmo materialista não tem fundamento para determinar como dever de um indivíduo o aumento do bem-estar das criaturas de um planeta inteiro. E dificilmente Craig teria a arrogância de se auto-promover como capacitado ou conhecedor de um meio para aumentar o bem-estar das criaturas conscientes do planeta. O que ele estava a defender era a existência de valores morais objectivos, não a maneira de tornar o mundo melhor.”
N- Então, se esses “valores objectivos” levarem a um mundo pior, Craig os endossaria de qualquer maneira? Há algo de hipócrita nessa passagem. E uma observação: materialismo e ateísmo não têm qualquer relação.
R:  O tema do debate não eram “valores objectivos” que Craig eventualmente endossasse. Mas a existência ou não, com que fundamento, de valores morais objectivos. Craig não foi para o debate defendendo a premissa “ajam de acordo com os valores morais X e Y que eu defendo como verdadeiros, e serão mais felizes nesta vida, terão mais bem-estar e tornarão o mundo inteiro melhor”.  Esse número circense de auto-ajuda ficou para Sam Harris.
Nypoa: Interessante como Craig não apenas parece não comprometer-se com nada, como também nada pode ser depreendido do que ele diz. Dado que o opositor é Harris, é de fato fácil e simples defender-se mostrando as bobagens que Harris diz. Mas seria ingenuidade demais supor que levantar a boba hipótese de que “se há deus, há valores objetivos” seja assim algo tão inócuo. Blefe claríssmo, meu caro Jairo.

Quanto há questão “se valores objectivos levarem a um mundo pior”;  só valores morais objectivos podem implicar a possibilidade do mundo ser realmente melhor ou pior em termos morais. Não sei se Craig endossaria ou não valores morais se eles levassem a um mundo pior em termos de bem-estar, nem como se faria tal cálculo global. O que está em causa é  que agir bem não é NECESSARIAMENTE sinónimo de bem-estar. Essa é a confusão de Sam Harris quando debate moral. Mantenho o que disse: neste debate Craig não defendeu uma maneira de tornar o mundo melhor. Não deu nenhuma receita de felicidade terrena à la Sam Harris.
Nypoa: Pios é, Craig deu a receita de felicidade celestial.

J: E uma observação: materialismo e ateísmo não deixam de ter relação, só porque Nypoa diz que não têm. Ateus materialistas não deixam de existir, só por Nypoa pensar que “não há qualquer relação” entre ateísmo e materialismo.  Sam Harris apresentou no debate uma visão moral ateísta, materialista e cientificista.
Nypoa: Do fato de que possam existir, disso não se segue que materialismo e ateísmo tenham qualquer tipo de relação necessária. Harris é um idiota, como eu já disse aqui. Aliás, fico na dúvida aqui sobre o que vc quer dizer com “materialismo”.

J: (…) Afirmações deste tipo demonstram-no:
1.    Questões de bem ou mal dependem de mentes;
2.    Mentes são fenômenos naturais (i.e., que dependem das leis da natureza);
3.    Moralidade pode, logo, ser entendida em termos científicos (…)
Mantenho o que disse. O ateísmo materialista não tem fundamento para determinar como dever moral de um indivíduo fazer algo para aumentar o bem-estar de um planeta inteiro.
Nypoa: Mas Jairo, o que tem isso a ver com “materialismo”? Em que pese a bobagem expressa nessas 3 afirmações.

JF- “Na verdade, utopias materialistas de bem-estar planetário, o chamado “ateísmo por um mundo melhor” são, senão pecaminosas, pelo menos perigosíssimas e desfavoráveis a milhões de seres humanos, assassinados e oprimidos ao longo da história por iluminados com a mesma doença de Harris: mentalidade revolucionária.”
N- Aqui vê-se o que de mais raso e bobo há nos argumentos neo-ateus. Apenas lembrando, Cristo foi, em sua época, tremendamente revolucionário e subversivo.
R: Eu disponibilizei o link com uma definição de mentalidade revolucionária ( a de Olavo de Carvalho), que me parece acertada e a fotografia da militância de tipos como Sam Harris. Pode-se discordar da definição apresentada e/ou se ela se aplica ou não a Sam Harris. Mas o que Nypoa fez foi comparar-me aos neo-ateus, sem justificação, e afirmar que Cristo foi revolucionário. Ele não deu uma definição de “revolucionário” alternativa àquela que eu partilhei.
Nypoa: Jairo, goste vc ou não, ao levantar-se contra uma militância, vc está militando também. Minha simpatia a Dawkins, Harris e cia restringe-se exatamente à militância ostensiva, algo que a religião também faz. Mas no que diz respeito à fundamentação do que pregam, a nota é zero. Tanto é assim que eles são confrontados com argumento bobos, como “o comunismo é ateu!”. Mas vc não pode dizer o que diz de Harris sobre “ao longo da história por iluminados com a mesma doença de Harris”. Não generalize, pois vc comete o mesmo erro de quem atribui a Al Qaeda à religião, ou que afirma que a religião “combate a ciência” e outras bobagens desse tipo. Menos, por favor...

J: (…) E está claro que Cristo não se enquadra no perfil de mentalidade revolucionária desenhado por Olavo de Carvalho. Exemplos disso não faltariam. Para poupar tempo, dou apenas um: Olavo de Carvalho:
-“Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política (…)
Jesus Cristo:
-“Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas; não os vim destruir, mas sim para os cumprir” ; ” A Deus o que é de Deus, a César o que é de César”
Nypoa: Aliás, corrijo o que eu havia dito: Cristo não foi apenas revolucionário, como tb tremendamente subversivo em sua época.

JF-  “Se a moral é descoberta, então ela existe independentemente da sua aplicação ou conhecimento por humanos. Mas se a moral é inventada (por utilidade evolutiva), então ela nunca pode ser objectiva e qualquer intenção de universalizar ao mundo aquilo que é útil para alguns, terá sempre de ser visto como tentativa de impor uma vontade particular ao resto da humanidade.”
N-  Errado. A moral não é “descoberta” nem “inventada”.
R: É   impossível comentar este tipo de afirmação. Estou errado porquê? Se, segundo Nypoa, a moral não é descoberta, mas também não é inventada, é o quê? Qual a terceira alternativa?
Nypoa: Vc está errado porque a moral, no final das contas, é acordada, é fruto de um consenso. CQD.

N-  Outro ponto: o utilitarismo, como qquer teoria moral específica, resolve muito bem algumas questões, mas falha gritantemente em outras. Impostos, por exemplo, tem uma justificativa claramente utilitarista: então devemos ser contra todo e qualquer imposto apenas por isso?
R: Eu apontei uma condição; se, como defende Harris, a moral é um produto evolutivo de sobrevivência, então a moral é necessariamente utilitária. Aquilo que é moral depende do que é útil, e aquilo que é útil depende de cada indivíduo. Logo, promover a universalização de uma moral, definida anteriormente como produto evolutivo ( utilitário), implica a apologia da imposição de algo útil apenas para alguns, a todos os outros.
Não defendi que devemos ser contra ou a favor de soluções utilitárias para problemas de utilidade. Mostrei que a definição de moral feita por Harris é contraditória com o seu lindo sonho de universalizar uma moral para beneficiar um mundo inteiro. Por isso não vou perder tempo a comentar em pormenor a idéia de que impostos são uma solução da “teoria moral específica” do utilitarismo. Mas seria difícil a qualquer político convencer os cidadãos a aceitar uma determinada política fiscal pelo argumento “vai ser útil para alguém”, em detrimento de “é o mais justo”. Concordamos que roubar é útil para o ladrão?
Nypoa: Justificar a moral em termos evolutivos é tão errado como justificá-la em termos religiosos. Essencialmente pelo mesmo motivo.

JF- “Se a moral depende de mentes, será sempre a mente dessas pessoas a determinar a sua opinião moral.(…)”
N-  Com toda a certeza, religiosos aqui incluídos.
R:  Então, quem assim pensa ( não é o meu caso) não tem possibilidade, por honestidade intelectual, de condenar preceitos e opiniões morais religiosas, ou quaisquer outras, como absoluta e objectivamente prejudiciais para o mundo. Não havendo diferença entre moral e opinião moral, as duas são a mesma coisa e determinada por mentes, de cada mente humana sai uma moral diferente, que não é objectivamente certa ou errada relativamente a nenhuma outra.
Nypoa: Aproveito pra perguntar como vc pensa, mas ainda baseado na sua antiga concepção sobre “objetividade” moral. Uma vez que vc parece separar ser “objetivo” de ser “bom/correto”, endossando Craig, vc cai na mesma crítica que faz aqui. Vc não pode jogar a escada fora.
Seu argumento aqui peca por posicionar toda e qualquer opinião moral como tendo o mesmo status, supondo que não seja necessário justificá-las e/ou achando que toda justificativa pode ser substituída por um mero “é minha opnião”. Como vc pode imaginar, as coisas estão longe de serem assim. Vc também parece desconhecer o que efetivamente motiva o acordo moral, que é, em suma, a possibilidade de intersubjetividade conjugada com a empatia. No caso que vc gosta, o dos bebês, torturar bebês sem qualquer justificativa ulterior, nada mais é do que provocar sofrimento gratuitamente. Se vc fosse o bebê, vc não gostaria de estar lá. E vc sabe como é ser um bebê, pois dado que ambos são seres humanos, vc tem uma noção muito exata do que é sofrer dor. E ainda mais gratuitamente. O resto, sobre esse exemplo simplório, é bobagem. Se vc precisa apelar a deus prá julgar que torturar bebês é errado, vc deveria ser imediatamente preso em um hospital psiquiátrico.

JF- “Como expliquei acima, a moral não tem necessariamente que ver com bem-estar. A cobardia para agir correctamente, em muitos casos dá mais saúde e bem-estar do que a coragem para fazer o que é certo.”
N- Moral tem sim, e muito, a ver com bem-estar. Ou então, como vc justificaria que algo “certo” poderia trazer mais mal-estar do que bem-estar?
R: Provavelmente uma pessoa moralmente cumpridora dos seus deveres estará sujeita a ter mais saúde, alegria, vigor, relações sociais e familiares estáveis, etc. Podemos discutir se isso não seria uma consequência de uma vida moralmente digna. Provavelmente até a Bíblia apresenta motivos para acreditarmos que sim. Cito de memória, sem referências, passagens como “Escolhei a vida ou escolhei a morte” ou “Todos os que Me aborrecem amam a morte”. Podemos entender isto como uma questão de fé. De alguma maneira, fazer o bem acabará mais cedo ou mais tarde por implicar bem-estar para alguém. Mas o que eu escrevi é que moral não tem NECESSARIAMENTE que ver com bem-estar. Dei o exemplo do bombeiro que morre queimado para salvar vidas. Queimaduras não provocam bem-estar. Faz esse bombeiro uma imoralidade ou um acto altruísta moralmente louvável ?
Se definirmos moral como “bem-estar”, como faz Harris, também somos hipócritas se depois nos posicionamos moralmente contra violações, roubos ou homicídios. Teremos de fechar os olhos à evidência de que violar , roubar e matar provocam bem-estar a algumas, muitas, pessoas. De nada serve responder a isto dizendo que violar, roubar e matar provoca mal-estar às vítimas. É precisamente esse o ponto: se moralidade for sinónimo de bem-estar, então não existe objectividade moral. O deliciado leão esventra a aterrorizada zebra.
Nypoa: “Bem estar” é algo um pouco vago para servir como referência, particularmente porque o que me gera bem-estar pode não gerar em vc. Em qquer caso, para o exemplo do ladrão (e do assassino e tantos outros) não se trata do bem-estar dele, em particular. Roubar é condenável porque, se não fosse, nossa vida seria muito mais complicada. Todos poderíamos roubar, mas ao mesmo tempo, ser roubados. Não haveria como tocar a vida adiante, ainda mais se vc começar a incluir outros atos dessa espécie. É muito melhor que a ninguém seja permitido roubar. De qquer maneira, acho esses exemplos extremos demais, o que os torna bastante aborrecidos. Por que vc não me fala, por exemplo, de casamento homossexual? E justifica sua posição (religiosa) sobre isso? Ah! e isso nada tem a ver com utilitarismo, observe-se.

JF- “Craig ofereceu uma visão completamente diferente de moralidade: valores morais objectivos, que não dependem das mentes de humanos.”
N- Interessante notar que essa frase não pode ser mais fascista, ou totalitarista, ou algo assim, ou ambos.
R: Nypoa comete o erro explicado por Craig no video de que falei no início.
N-  Há por trás dessa afirmação a pretensão boba e romântica de que esses valores morais objetivos são os “certos”, os “melhores”, e de que somente a partir deles o mundo poderá ser melhor.
R: Não. Essa afirmação apenas defende que existem valores e deveres morais objectivos. A partir deles o mundo também pode ser ( considerado) pior. Se o mundo estivesse muito afastado deles, por exemplo. Avaliação que só um ser omnisciente poderia fazer.
A questão é se existem ou não valores e deveres morais objectivos. Craig não defendeu neste debate valores ou deveres morais específicos que considere verdadeiros, “certos” ou “melhores”. Mas se o tivesse feito, só poderíamos discordar dele partindo do princípio de que valores e deveres morais são objectivos, e que por isso ele estaria errado, ou seja, em desacordo com uma realidade objectiva.
Nypoa: Qto mais vc defende Craig, mais vc se afunda. Se é assim, te pergunto pela 8a vez: que diferença faz então haver ou não valores morais objetivos se dessa afirmação nada podemos derivar? Se do fato de que algum valor moral ser tido como objetivo disso não se segue que ele seja necessariamente correto? Se do fato de que algum valor moral ser tido como objetivo disso não se segue que podemos justificá-lo como correto para então seguí-lo? Craig parece ser uma apologista da completa inoquidade. Assim como o Jairo.

N- Caso contrário, Craig estaria abrindo a hipótese de que esses valores “objetivos” – e que devem ser seguidos por isso – podem trazer mais males e sofrimento do que se adotássemos outros valores.
R: Parece que o Nypoa só admite duas possibilidades: ou  valores morais objectivos implicam  males e sofrimento, ou bem-estar e felicidade. Mas a questão é que a agir de forma moralmente correcta não tem NECESSARIAMENTE que ver com obtenção de prazer, bem-estar ou felicidade, assim como não tem NECESSARIAMENTE que ver com obtenção de sofrimento e dor. Terá que ver, NECESSARIAMENTE, com o cumprimento de deveres morais objectivos independentes de vontade, interesse e gosto; não importa se têm como consequência directa e imediata prazer ou dor. Caso contrário, não existe algo que possamos realmente chamar de valores morais,  que nos determinam essa coisa estranha chamada DEVER.
Nypoa: Se vc acha essa coisa “estranha”, eu te ajudo. Porque ou vc sabe o que está por trás do que diz aqui (e meio que está me testando, o que seria ótimo), ou vc não sabe, o que te colocaria na categoria de um neo-religioso. No mesmo nível de adolescência intelectual deslumbrada dos seus inimigos mortais, os neo-ateus. Reveja o que eu disse sobre ser religioso, alhures (para usar um termo da língua original de Camões). Essa coisa só é de fato estranha às nossas vontades humanas, mas não é estranha à vontade divina. O Jairo acha que devemos seguir um mandamento moral a qquer custo, o qual ele julga correto (seja lá pela razão que for), mas que não necessariamente traga bem-estar, prazer ou felicidade. Por que alguém faria isso em sã consciência? Pela simples razão de que o Jairo julga haver alguma recompensa em agir dessa forma. Agindo assim, o Jairo sente-se em sintonia com o plano divino, e atingirá a salvação. Em suma, o Jairo julga haver um sentido objetivo para vida, dado pelo plano divino. E já que falamos tanto em objetividade, um “sentido objetivo para vida” significa que devemos viver segundo um plano maior e externo (daí o “objetivo”) e que é avassaladoramente mais importante do que algum sentido subjetivo (“eu decido de forma soberana que fazer da minha vida”) que alguém ouse contrapor. Eis a percepção religiosa totalmente desnudada.
Só que ao supor um sentido objetivo para a vida vc cai num problema sem solução (o que mostra que essa é uma suposição impossível). Afinal, se todos morremos e tudo termina, quando chegaria a salvação? E mais, por que preocupar-se com isso afinal se tudo acaba mesmo? Caso contrário – supondo a vida eterna – uma vez obtida a salvação, receberemos carta-branca do Todo-Poderoso para fazermos o que der na cabeça por toda a eternidade? Cadê então o “fundamento ontológico da moral objetiva”? Ou somos então todos Sísifos, empurrando a pedra montanha acima para vê-la rolar morro abaixo, e novamente empurrá-la para cima, indefinidamente, sendo a salvação como a cenoura na frente do burro?
Um aparte final. Jairo, a religião só é defensável desde um ponto de vista existencial e íntimo. Num terreno franco e aberto, a religião é indefensável. Mas claro está que ao fazer afirmações esquizofrênicas tal como “não há evidências sobre existência de deus” sequer acerta-se a parede, qto mais o alvo. E se vc acha que ser ateu significa quase que apenas supor que deus não existe, sugiro que vc reveja esse conceito com cuidado. O grande erro de Dawkins, Harris, Dennet, Hitchens, neo-ateus e outros bobos está em que o ateísmo apenas começa qdo se retira de deus de cena. E não que ele acaba nisso. Eles não sabem muito bem o que fazer qdo retiram deus dos céus. E os religiosos muito menos.
Mas, se vc defender a religiosidade como sendo uma opção íntima sua, confesso que apenas me restará dizr um “ok, Jairo.” Mas é claro que vc não ovirá esse “ok, Jairo.” caso vc tente trazer para o plano público essa opção.
[]s,
Nypoa

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Solteiros só podem ser covardes…

Poucas coisas são mais patéticas, e por isso mesmo uma fonte garantida de diversão, do que as sessões “Comportamento” (ou “Relacionamentos”), de revistas ou portal de notícias. Numa bem recente, lemos que “Solteiros convictos têm mais autonomia, mas podem esconder medo de sofrer”. Como sempre, se vc é solteiro e acha isso bom (ou pior, se acha isso muito bom), então certamente há algo errado com vc.

Veja que “As especialistas afirmam que é comum alguns homens usarem o status de solteiro convicto como forma de autodefesa. A baixa autoestima e o medo de se machucar são os fatores principais que levam os homens a se apoiar na imagem do solteirão bem-resolvido”. Pois é… Quem se sente bem solteiro, de fato esconde um medo de ser de fato feliz. Vc certamente tem baixa autoestima, não quer envolver-se num relacionamento por medo de se machucar. Ou seja, vc é um covarde. Vá se tratar.

Talvez vc tenha de fato medo de outras coisas também, como de estar em casa sábado à noite vendo Zorra Total com uma lata de cerveja na mão, enquanto a pessoa amada cochila ao lado. Ou talvez vc tenha medo de perder completamente o tesão. Ou talvez vc tenha medo de ver-se obrigado a fazer sempre as mesmas coisas, sempre com a mesma pessoa. Talvez vc seja fóbico ao tédio. Ou talvez vc tenha medo de sentir a adrenalina correndo nas veias de vez em quando. Seja lá qual for a explicação, uma coisa é certa: solteiros “convictos” são covardes.

[]s,

Nypoa

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O Cafajeste e a Estelionatária

“Cafajeste”, segundo o Michaelis: 1 Indivíduo de ínfima condição.  2 Indivíduo inútil, sem préstimo. 3 Vagabundo, valentão. 4  Biltre.

Segundo O Caderno Mulher: é o homem para quem “amar não é sua prioridade. Já que as ambições profissionais e/ou sociais ocupam todo o seu tempo, o sexo sem envolvimento basta para ele.” Onde “amar”, é claro, mereceria também aprofundamento.

Logo, parace que um homem que esteja interessado em sexo sem ter que enfrentar um compromisso padrão posterior, é um sujeito “de ínfima condição, inútil, sem préstimo, vagabundo, um biltre”. E “biltre”, ainda segundo o Michaelis, significa “ordinário, vil, homem desprezível, miserável, tratante”.

Essa vinculação é tremendamente interessante. Mas deve haver então uma contrapartida feminina, já que mulheres cafajestes, devem também fazer alguma coisa tão baixa quanto. Mas certamente não são mulheres que querem apenas sexo. Isso pode receber qualquer adjetivo, tão errado como o que se fala aqui. Mas com certeza não seria “cafajeste”.

Mas qual seria então o análogo do homem cafajeste? Ora, em oposição à definição do sujeito cafajeste, é a mulher que não quer apenas sexo. E isso é uma questão lógica. Se o cafajeste sugere promessas para ter apenas sexo, tal mulher usa o sexo para induzir algum homem a algo que ele não necessariamente deseja. Busque no Google o adjetivo que define  ”manobra fraudulenta para induzir ou manter em erro uma pessoa, com o fim de prejudicá-la em proveito próprio ou de terceiro” e vc vai se daparar com a palavra “estelionato”, ou “estelionatária”.

O cajajeste e a estelionatária, então, são figuras bastante comuns por aí, e se merecem. Ele quer apenas sexo, sem assumir o papel de príncipe romântico. Já ela cedo no sexo para incutir a obrigação romântica.

Mas as pretensões de querer apenas sexo, e de buscar um par romântico, nada tem em si de condenáveis. Se o suposto cafajeste deixar claro, de forma implícita ou explícita, que no outro dia a despedida será com um “a gente se fala”; e se ela, por sua vez, deixar claro, também de forma implícita ou explícita, que nos outros dias eles seguirão vendo-se e que espera dedicação exclusiva e incondicional, não haveria porque condená-los.

Moral da história: já que vc não deixou tudo claro antes, tá reclamando do que?

[]s,

Nypoa

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Por que os homens pagam por sexo?

Dei um Google nessa frase/pergunta e em sua variante (por que os homens buscam prostitutas) e, claro, há vários resultados. 90% são clichês (baixa auto-estima, vício e bobagens assim). Enquanto lia, lembrei de uma piada sem graça, mas cuja suposta graça tem muito a dizer sobre isso:

- Oi Ana, tudo bem? É o Carlos!

- Oi Carlos, tudo sim, e com vc?

- Tudo também… Vc tem algum compromisso para hj à noite?

- Não…

- Então por que não vamos comer uma pizza e dar uma transada?

- O queeee?????

- Tá… Tudo bem… Pode ser um sushi então…

Claro, se Carlos e Ana fossem namorados, esse poderia ser um diálogo normal. Mas implícito porém óbvio está que são apenas amigos.

E isso explica o grande e talvez único motivo pelo qual os homens pagam por sexo: é que os homens não pagam por sexo, paga-se de fato para elas desaparecerem. Raramente, muito raramente mesmo, o sexo não é pago. É comum ler-se em tom de deboche alguns cálculos sobre isso, sempre concluindo que pagar uma prostituta é mais barato do que ter uma namorada, e absurdamente mais barato do que uma esposa (e neste caso, apenas na remota hipótese de haver sexo).

O que de fato é caro nos casos tidos como normais, não é o que se gasta, mas o que se exige. O ponto de partida do raciocínio é: quero fazer sexo. Mas não tô com a mínima disposição de assinar nenhum contrato ou termo de compromisso, e muito menos de ter que dar explicações, não atender telefonemas nem qualquer tipo de conflito desse tipo.

E por isso, e não pelo sexo, que se paga.

[]s,

Nypoa

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Terminar por email?

Já que carta não se usa mais. Volta e meia vejo algumas cenas em filmes onde alguém exclama indignado (na verdade, quase sempre indignada): – Mas ele nem teve a coragem de falar isso pessoalmente!

Isso de fato é ridículo. Quem termina, termina por uma razão muito fundamental, que pode ser traduzida na seguinte afirmação: – eu não quero mais. Claro, pode, ou mesmo deve, e eu aceito isso, que alguma explicação faça parte. Mas também não há razão para que tal explicação exija o aprofundamento e o detalhamento de uma tese e doutorado. Quando vc explica a outra pessoa, um amigo(a), porque terminou seu último relacionamento, essa explicação não costuma ser longa.

Recentemente eu fui agraciado com isso: ela terminou comigo por email!! Respondi com uma ou outra digamos dúvida ou curiosidade, e mais um ou dois parágrafos bastaram para selar a decisão. Fiquei duplamente aliviado e percebi que nem deveria ter respondido. Primeiro, porque era um relacionamento que já se arrastava, quer dizer, durava, uns 4 meses, mais do que o suficiente para que um tédio nauseabundo tome conta de tudo. Pelo menos não cheguei no fundo do poço, que é ver Zorra Total comendo pipoca.

Mas segundo, e principalmente, porque poupou a ambos a absurdamente constrangedora situação de estar diante de alguém e ter que terminar. E é um constrangimento mútuo, tanto para quem termina quanto para quem é terminado. Quem nunca passou por isso?

Horas e horas intermináveis de conversas circulares, o mesmo assunto sendo dito e perguntado milhares de vezes, o silêncio constrangedor fazendo pausas tenebrosas. Mas principalmente, aquela hora de estar sozinho, que nunca chega!!! Isso sem falar no drama e nas muito comuns agressões, eventualmente físicas.

Me diga com sinceridade: se alguém termina com vc, o que mais pode interessar que não a vontade de quem de termina de não estar mais com vc? O resto é o resto… O insistente e constrangedor questionamento de quem é terminado (mas não gostaria) soa como se este alguém estive querendo convencer o outro que ele(a) não deveria terminar.

Mas a decisão é pessoal e intransferível, obtida a partir de uma constatação íntima, não acessível de fora. Resumida na afirmação talvez lacônica mas completa e suficiente: – eu não quero mais. Se o outro não quer mais, o que resta fazer? Vazar.

E o email poupa tanto o ato de ter que sair, como de ter que ouvir isso pessoalmente. Muitíssimo menos constrangedor.

Só posso mesmo ter ficado feliz por ter sido assim. De fato duplamente, como eu disse no início.

E, como em todo o relacionamento, deve-se pensar em seu término mesmo antes que ele se inicie. Porque ele vai necessariamente terminar. Melhor começar então dizendo, em algum ponto: – por favor, se vc for terminar comigo, mande um email. Nada mais civilizado.

Claro, para quem fez a bobagem de casar, há o constrangimento de ter que comparecer perante um juiz, além é claro, do custo, que é mosntruoso. Falando nisso, disse um colega meu, que confessou, um tanrto quanto constrangido, que tinha gasto algo como R$100 mil em sei lindo casamento: – Não se preocupe, vc achar que foi de graça. No dia em que se separar.. rsrsrs.

[]s,

Nypoa

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“STF reconhece união homoafetiva por unanimidade”

Eu já havia comentado sobre isso por aqui. O título desse post é a notícia veiculada no Estadão. Uma forma alternativa de dar essa notícia seria essa:

“STF fecha o cerco e retira a imunidade da união homoafetiva”.

Ou seja, agora também os gays estão sujeitos às perversas consequências legais (e que de fato são apenas financeiras) do casamento. Só me resta dizer: wellcome to hell!

Eu não vou viver prá ver isto, mas tenho fé de que o direito de família irá se extinguir no futuro.

[]s,

Nypoa

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