Ateísmo e Religião: Qual é mais Racional?

É interessante ver como ambos os lados proclamam racionalidade em suas escolhas. Argumentos lógico-racionais provam tanto a existência como a inexistência de deus. E no meio disso, a “ciência” – seja lá o que se entenda por isso – é sempre chamada como testemunha. Pobre criatura… A ciência nada tem a ver com isso. Nossas decisões e escolhas são racionais? Sim, sempre! Ou melhor, quase nunca. Faço uma aposta com vc: Se em metade de todos os jogos de futebol do campeonato brasileiro, incluindo-se o juiz, sempre houver pelo menos 2 pessoas que fazem aniversário no mesmo dia, eu ganho 1.000 Reais, no caso contrário vc ganha os 1.000 Reais: vc apostaria? Vc jogaria na Megasena? Vc apostaria tudo o que vc tem podendo ganhar o triplo se der cara. ou perder tudo, se der coroa?

Quase todos nós responderíamos assim: sobre os 1.000 Reais, é claro que sim. Sobre a Megasena, é claro que sim também. Sobre perder tudo ou ganhar o triplo jogando uma moeda prá cima, é claro que não. Já um computador responderia exatamente o contrário (uma rápida avaliação estatística e de teoria dos jogos mostra que o computador está correto e nós não). Acredito que o grande problema na questão da racionalidade seja justamente o de obter-se um conceito ou significado de racionalidade. E só então tentar responder à questão título do post ou qualquer outra que busque identificar qualquer ato ou juízo como “racional”.

Eu descarto de início qualquer definição instrumental ou normativa de razão. Elas trazem o mesmo tipo de problema que as abordagens fisicalistas da mente. Qual seja, suprimem todo o aspecto subjetivo da razão. Tanto essas abordagens como o fisicalismo buscam situar-se em um ponto externo ou ulterior, passando a analisar a razão (ou a mente) desde um ponto de vista mais afastado. Mas fazem isso usando justamente aquilo que buscam explicar: no caso da razão, usam a própria “razão” para explicá-la; o mesmo ocorrendo com a mente ou consciência.

A noção de racionalidade deve conter ou estar baseada primeiramente nas noções mais fundamentais de nexo e de sentido. Algo percebido como “racional” deve ser algo que tenha nexo e sentido, independentemente de estar correto ou não. E deve ter nexo ou sentido para o sujeito que está diante da situação ou problema específico.

Outra desvinculação importante diz respeito às noções de lógica e razão. Tudo o que é lógico deve ser racional, mas a recíproca não é verdadeira. A noção de lógica é bastante objetiva, localizada, interna. Mas a racionalidade é bem mais abrangente do que isso. Se eu provo água de um copo e sinto sabor doce, concluo “racionalmente” que tem açúcar (ou algo que provoque esse sabor) na água. Mas isso não tem nada de lógico.

Acredito que racionalidade só pode ser definida e mesmo entendida em termos negativos. Qualquer definição positiva acabará excluindo a subjetividade do sujeito que percebe algo como racional, assumindo um caráter normativo ou instrumental. Se a incluir, a tornará perigosamente relativa, permitindo que a esquizofrenia e a racionalidade não sejam diferenciáveis. Com isso, eu prefiro definir racionalidade como sendo um pensamento, idéia ou juízo em que não seja possível identificar alguma inconsistência, falácia ou pontos cegos (inexplicáveis). Em certo sentido, seria dizer que algo é racional quando não forem detectados traçoes de irracionalidade. E não há outra via para essa detecção: ela estará fundamentada na intersubjetividade, no crivo de outros pontos de vista.

Dessa forma, por mais que a fé seja uma crença sem evidências, ela só poderá ser taxada de fato de irracional quando for caracterizada como a crença em algo em que haja inegávies evidências em contrário. Por exemplo, crer que a Terra é plana.

Sobre a fé em deus, por mais ateu que eu seja, eu reconheço que qualquer tentativa de imaginar-se uma possível origem do universo esbarra no ininteligígel, e isso inclui deus. Como eu já disse antes, o lado que colocar o primeiro argumento perde a discussão. É como o Jogo da Velha: após jogar 2 ou 3 vezes, vc sempre empatará. Mas o universo existe, e deve haver alguma explicação, e que provavelmente contrariará alguma premissa fundamental que hoje utiizamos para pensar essa questão. Pois mantidas essas premissas, não há como chegar-se a conclusão alguma.

Portanto, se a “fé” for fé na existência de deus, eu sou (infelizmente) obrigado a reconhecer que ela não é irracional. E também acho uma tremenda perda de tempo esforços intelectuais tanto no sentido de apresentarem-se tentativas de refutação de argumentos de cunho lógico para a existência de deus como esforços em sua refutação. Mas, em eu sendo um ateu ortodoxo, fundamentalista e praticante, eu obviamente tenho que a propensão ou percepção religiosa é irracional sim. Mas em outros dois aspectos: o sentido da vida e a evangelização.

Falo disso nois dois próximos posts.

[]s,

Nypoa

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2 respostas para Ateísmo e Religião: Qual é mais Racional?

  1. PJ disse:

    Perdão caro Nypoa,

    “Portanto, se a “fé” for fé na existência de deus, eu sou (infelizmente) obrigado a reconhecer que ela não é irracional.”

    Mas, geralmente você não escreveria algo do tipo em um frase tão direta.

    Você quando enfrenta os argumentos pró-existência divina, simplesmente diz ser o resultado implausível, mas não mostra exatamente o “porque”. Não estou falando de questões morais ou éticas, mas exclusivamente a questão da existência divina.

    Mas isso é só opinião pessoal, muita gente não vê implausibilidade na crença em Deus. Justamente por causa de argumentos como o argumento cosmológico. Não é nada implausível a existência divina.

    Veja estes últimos textos do Craig, para ver aquela questão do tempo.

    http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/10/30/william-lane-craig-deus-tempo-e-a-criao/

    http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/10/29/william-lane-craig-objeo-de-dan-barker-contra-o-argumento-kalam/

    Você terá que apresentar mais argumentos para dizer que a fé em Deus é irracional. Eu te cito diversos argumentos pró existência divina, e você simplesmente poderá alegar ininteligibilidade ou algo do tipo. Mas isso é só isso um comentário de alguém que diz não ser possível entender o que é algo que sempre existiu mas co-existe com algo que começou a existir.

    Abraços

    • Nypoa disse:

      Olá Paulo,
      P> “Você quando enfrenta os argumentos pró-existência divina, simplesmente diz ser o resultado implausível, mas não mostra exatamente o “porque”.
      N> Toda tentativa de responder à questão “porque (ou como) há algo em lugar de nada”, esbarra necessariamente naquilo que motiva a própria pergunta. Ou seja, na premissa de que tudo deve ter um início (ou causa). E essa afirmação é soberana sempre. Oferecer deus como rta não soluciona nada, pois a premissa inicial segue firme e de pé, e por uma questão de simples coerância, ela deve ser também aplicada a deus. Termos como “incausalidade”, “atemporalidade” e outros semelhantes são intelectualmente desonestos, eles tentam solapar a premissa inicial simplesmente negando-a. Por mais ininteligíveis que sejam esses termos, o que se está fazendo aqui é depositando esperanças (fé) de que há algo que não precisa de explicação, e esse algo seria deus, ainda que isso seja absolutamente incompreensível. Em outras palavras, absolutamente irracional. Craig, e quem quer que seja, não pode safar-se assim facilmente.

      Mas há outro problema aqui, normalmente não aprofundado. Ainda que eu conceda que deus é incausado e atemporal (seja lá o que isso signifique), e que ele criou o universo e tudo o mais que há, surge um novo problema: deus passa a fazer parte da realidade empírica. Afinal, se Ele criuou tudo, essa mágica exige também um explicação. Mas mágica não existe. Mágica só é mágica enquanto estamos diante de algo e não sabemos como aquilo ocorreu. Mas não podemos hosnestamente esconder a necessidade de que alguma explicação deve haver. E nesse caso, alguma explicação de cunho estritamente empírico faz-se necessária, pois estamos falando de como a realidade que conhecemos surgiu.

      Deus deixa então de ser uma concepção de natureza metafísica (onde Ele estaria a salvo de escrutíneos científicos) para tornar-se uma entidade mágica e sobre natural. Vc decide.

      Não se iluda: a religião só é defensável desde uma abordagem pragmatista. Ou seja, por seu valor de utilidade e prá quem acha que ela tem efeitos positivos, é claro. Fora disso, ela é simplesmente indefensável. O melhor a fazer, desde um ponto de vista religioso, é deixar essa questão sobre a origem do universo e da criação bem quieta.

      []s,

      Nypoa

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