Num post anterior, acusei a percepção religiosa de irracional em dois aspectos, um deles sendo o sentido da vida. Como disse Nagel, “(…) se vc tem algum credo religioso, vc não pode pensar-se como vivendo uma vida meramente humana. Essa será uma vida à luz de deus ou de alguma alma ou consciência do mundo. Isso é parte da resposta sobre quem vc é e o que vc está fazendo aqui”.
O sentido da vida desde uma percepção religiosa tenta responder objetivamente a essa questão: o que estamos fazendo aqui? Em outras palavras, perceber-se religioso implica aceitar que a vida, a minha, a sua e a de todos os seres humanos tem um propósito, um motivo. Que não estamos aqui por acaso, e que devemos viver segundo algo maior, particularmente maior do que nossas percepções individuais (mesquinhas).
O problema disso surge justamente quando se tenta identificar esse propósito ou sentido. Por que sempre é possível, após alguma explicação qualquer, reapresentar a pergunta: ok, mas e qual o sentido disso? Se alguém disser que estamos aqui para servir ao propósito X, eu posso perguntar: tá, mas e por que fazer isso? Uma hipótese necessária para admitir-se um sentido para a vida é o de que ela não termina com a morte. Pois se tudo termina com a morte, e mesmo se tudo terminará de qualquer maneira, o que poderia nos impelir a seguir algum propósito? Se seguirmos X ou se não seguirmos X, morreremos de qualquer maneira, então por que seguir X? Se não há qualquer recompensa ou qualquer castigo, o que seria esse sentido então? A noção de continuidade é necessária aqui.
Mesmo que a vida dure muito mais do que imaginemos, o argumento acima segue de pé. A única hipótese então é imaginar a vida infinita. Mas antes de seguir, as coisas aqui já coimeçam a assumir um ar de esquizofrenia. Ao morrer, algo em nós segue vivo. Alma, espírito, substância ou qualquer termo que se use, isso começa a cheirar a filmes de terror ou de ficção baratos.
Mas vamos supor que seja assim mesmo. Que seguimos vivendo eternamente. Mas o interessante nisso é que, ainda sob essa hipótese nada “racional”, a incômoda pergunta segue firme: qual o sentido disso, ainda assim? O mito de Sísifo – obrigado a empurrar uma pedra morro acima, vê-la rolar morro abaixo, para então empurrá-la morro acima, eternamente – apresenta-se nesse situação.
A idéia de um sentido para a vida esbara em uma situação sem solução, e por isso irracional: se não morremos, somos todos Sísifos; se morremos, então por que seguir algum propósito maior?
A noção de um sentido objetivo para a vida carrega necessariamente a noção de recompensa, de salvação. Mas “ser salvo” implica dois momentos distintos, um antes e um depois dessa salvação. Nós aqui estaríamos, segundo essa percepção, no momento anterior, sob avaliação. Mas em algum ponto nessa história, deve haver a passagem para o estado de salvação. Independentemente de isso ter algum nexo ou não, ou mesmo de tentar-se pensar sobre isso com algum realismo, de imediato surge o problema do pós salvação: o que então? Se isso for o fim – a morte – que diferença fará morrer em estado de salvação ou de não salvação, se morremos de qualquer jeito? E se não morremos, a partir desse instante, a vida perde o sentido – pois já estamos salvos? Ou será que de fato nunca seremos definitivamente salvos, mas apenas nos mantemos à salvo, e qualquer escorregão nos joga de volta na miserabilidade existencial, como se fôssemos Sísifos que um dia se encheram de ficar empurrando a pedra morro acima?
Eu honestamente acho que toda a digressão feita acima é um completo non-sense. Qualquer que seja uma solução aventada para isso, ele não resolve o absurdo dessa noção. E trazendo de volta então a questão da (ir)racionalidade, me parece difícil seguir percebendo a vida sob a essa noção de sentido tentando justificar isso como algo racional. O pensamento ou a propensão religiosa, quando “racionalmente” levada a algum limite, esbarra rapidamente na irracionalidade. Mais ou menos como quando se demonstra algum teorema partindo-se do pressuposto de que ele está errado. No final, o resultado apresenta uma inconsistência, ou irracionalidade, e então conclui-se que o teorema é válido. E esse me perece ser o caso. E por isso a fé é necessária: para lidar com o irracional.
[]s,
Nypoa
Acho que vou adicionar este blog na minha lista de links.
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