Religião e a Relação Público-Privado

Este post, sob a forma de uma resposta ao Francisco Razzo, justifica algumas afirmações que eu havia feito em comentários. Quero aproveitar e agradecer ao Francisco pela oportunidade de debater com ele.

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E acho que há 2 temas aqui. Um, sobre minha afirmação “a religião só é defensável desde um ponto de vista existencial e íntimo. Num terreno franco e aberto, a religião é indefensável.”; e outro sobre a relação público-privado. Começo pelo 1o. porque é sobre esse aspecto da relação público-privado que estamos a conversar.

Vc diz:

(…) Caso assim fosse, o ateísmo também é defensável apenas do ponto de vista existencial e íntimo. Pago realmente pra ver quem consegue separar o íntimo do não-íntimo. Toda manifestação em terreno aberto é a manifestação da intimidade pelo lado de fora.”

Ok. Mas antes, alguns comentários preliminares. Veja que ao dizer isso vc como que dá um passo atrás e avalia a opção religiosa com algum distanciamento, colocando-a lado a lado com a opção ateísta. Independentemente de qualquer coisa, vc não está não neste exato instante emitindo uma opinião que podemos chamar de “religiosa”. Compare isso com o comentário da Sheilla, no mesmo post. A rta dela sim é religiosa, pois o que ela diz exprime bem o inescapável dilema religioso. E para avaliar e mesmo contra argumentar sobre o que eu vou dizer é preciso manter-se nesse distanciamento em que vc se coloca.

Como eu disse no post (e em outros posts também), a percepção religiosa necessariamente assume “a idéia de que há alguma mente ou princípio auto-circundante em adição às mentes dos seres humanos e demais seres – e que essa mente ou espírito é o fundamento da existência do universo, da ordem natural, de nossa existência, nossa natureza e nosso propósito.”. Mas eu tb disse no comentário anterior que “dado que eu não faço parte de qualquer plano cósmico (seja porque não vejo que haja algum seja porque eu decidi não fazer), o que alguém tem a me dizer sob um ponto de vista religioso?”

A religião não pode genuinamente aceitar minha hipótese, ou minha opção/escolha. Porque ou há um plano, e todos estamos nele, ou não há um plano, e tudo é uma tremenda ilusão. Não é possível achar que há um plano apenas para quem crê ou assume que há algum, porque isso implica necessariamente em não haver qualquer plano. Ora, se eu posso fazer o que me der na telha sem que isso traga qualquer consequência quanto à minha salvação, então do que estamos falando afinal? Por mais que o sujeito religioso diga que aceita minha escolha, ele se vê obrigado, por coerência, a me ver como um desgarrado, um herege. Eu não posso escapar impunemente. Em algum momento, em algum lugar, eu devo pagar pela opção que fiz (contraste o que eu digo com a rta da Sheilla). Ou seja, a religião exige, por hipótese, que eu esteja errado. E mais, não há como não me julgar, não há como não emitir um juízo de valor negativo sobre minha opção. Esse juízo é parte integrante do arcabouço ou perspectiva religiosa. Mas vamos além, pois até agora o que vc disse segue firme. Ainda que por ora apenas tateando a questão público-privado.

Há um argumento muito forte que a perspectiva religiosa tem uma tremenda dificuldade em lidar, que é o seguinte:

“deixe-me fazer o que eu julgar ser melhor para mim, caso isso em nada afete vc, nem te obrigue, nem te desobrigue a absolutamente nada; e nem tendo, isso que eu desejo fazer, qualquer reflexo na sua liberdade ou segurança individual.”.

O homossexualismo, por exemplo, baseia-se claramente nisso (e também outros temas dessa espécie), mas esse argumento é no mínimo muito forte. E sobre isso, vc diz:

“O ato homossexual é intransponível para vida pública, mas a homossexualidade não. Qualquer ato sexual é íntimo na sua banalidade, mas a concepção de sexualidade não.”.

Não vou aqui entrar no mérito específico desse tema, ainda que eu esteja a falar também sobre ele nesta resposta. Vc diz que a “(…) concepção de sexualidade não”. Independentemente da concepção em si, mas dado que isso “(…) em nada afetará vc, nem te obrigando, nem te desobrigando a absolutamente nada; e nem tendo isso (…) qualquer reflexo na sua liberdade ou segurança individual”, por que sequer preocupar-se com isso?

O problema em agir ou pensar genuinamente assim, desde uma percepção religiosa, é que isso significa, em essência, abrir uma brecha no plano. E nem que seja uma brecha íntima, pois no íntimo vc estará, ao fazer isso, sabotando o plano. Eu volto a isso adiante, quando falar sobre a relação público-privado.

Eu sei que vc está pensando o seguinte: ok, mas então o mesmo aplica-se a posição ateísta, por reciprocidade. Sim e não. Sim porque, se eu julgo não haver plano, então ninguém está sob plano algum. Mas a recíproca termina aqui. Como vc anotou aqui no seu site, o ateísmo é essencialmente niilista, ainda que num sentido um pouco mais frouxo, entendo eu. Vendo “do lado de cá”, a perspectiva religiosa é uma ilusão. Mas o posicionamento do sujeito ateísta é originalmente indiferente quanto a isso, tendo por base o argumento que eu apresentei antes. Mas não indiferente no sentido de não emitir um juízo sobre isso, mas antes indiferente no sentido de que, do fato de eu julgar isso uma ilusão, disso não se segue que eu deva (friso o “dever”) ou mesmo tenha qualquer motivo para digamos “agir”. E eu volto aqui minha analogia do gengibre, que apesar de ser de fato uma banalidade, mostra que não há essa relação de necessidade entre discordar-se de algo e agir positivamente contra esse algo. Em essência, se isso “(…) em nada me afetará, nem me obrigando, nem me desobrigando a absolutamente nada; e nem tendo isso (…) qualquer reflexo na minha liberdade ou segurança individual”, faça-se o que bem entender. E nada mais há a ser dito.

Voltando então a relação público-privado. Como eu dizia, a percepção religiosa encontra um dilema forte no argumento que eu uso acima quando o ato ou decisão for contrário ao plano. Porque isso significa submeter a vontade divina à vontade humana. Te confesso que desde uma percepção ateísta, o tema público-privado é algo abstrato e um tanto quanto insosso. Em si, ele diria mais respeito a uma espécie de habilidade interpessoal em mover-se no mundo, uma questão pessoal afinal. É mais uma questão de flexibilidade, maleabilidade, adaptação, inteligência ao conduzir sua vida do que propriamente uma questão fundamental em si mesma. Ainda que, é claro, “Toda manifestação em terreno aberto é a manifestação da intimidade pelo lado de fora.”. Mas eu – agora imbuído na perspectiva ateísta – vejo essa afirmação num sentido mais solto, mais amplo, sem implicações a priori, uma questão abstrata.

Como eu disse antes, a religião não admite que a vontade humana possa sobrepor-se à vontade divina. Ainda que isso não seja impossível, ao aceitar o argumento que eu coloquei, o sujeito religioso passa dar seu aval para transgressão. E, ainda que ele próprio não transgrida, isso em si já é uma transgressão. Mais do que isso, uma vez tendo assumido esse posicionamento, o argumento moral religioso perde completamente sua força. Ele passa, então, a ser uma opção íntima, seja uma intimidade pessoal ou de um grupo. Nesse cenário, a religião passa a ser exclusivamente uma questão de foro íntimo, e portanto, plenamente “defensável”, como eu havia originalmente falado. E, vendo de fora, isso torna-se algo banal perante o mundo, tão irrrelevante quanto o gengibre.

Mas, a transgressão não é permitida. Não há como genuinamente consentir algo que vá contra o plano divino. Por que, ainda que isso não afete pessoalmente, isso afeta a Deus. E, confesso, não me ocorre outra justificativa para a ênfase que vc dá à relação público-privado, à importância aparentemente inexplicável dada a questões como estado laico, símbolos religiosos em lugares públicos, homossexualidade e outros temas que são caros à religião e que podem perfeitamente ser respondidos com “uma vez que tudo isso em nada afetará vc, nem te obrigando, nem te desobrigando a absolutamente nada; e nem tendo isso (…) qualquer reflexo na sua liberdade ou segurança individual”, por que sequer preocupar-se com isso?”

E, exceto se for possível justificar que todos esses temas, no âmbito em que são defendidos e/ou apresentados, afetam, seja a liberdade ou a segurança, seja por impor obrigações, só resta, para rebater o que eu disse, retroceder e outra vez vestir o argumento religioso original.

Alguém poderia me contrapor dizendo que eu estou, em qualquer caso, impondo privações. Que eu estou cerceando o direito, digamos, da religião de tentar impor sua perspectiva. Que o que eu digo, afinal, volta à sua afirmação inicial, que “o ateísmo também é defensável apenas do ponto de vista existencial e íntimo.”. Mas acho que não. Simplesmente me responder assim cheira a um reductio. Trago então algo que vc também disse:

“No entanto, nem toda questão de gosto é limitada à intimidade banal”.

O grande problema está em decidir quando é um e quando é outro. O problema não está na relação em si, mas no critério utilizado. Um lado diz “deixe-me em paz e eu deixo vc em paz também”, e o outro responde “não posso, não tenho essa possibilidade”. Vendo tudo isso de fora, ou desde um ponto de vista humanista se alguém preferir, é difícil não ver um forte desequilíbrio.

E é muito complicado e bastante difícil justificar esse “desequilíbrio. Porque ele exige justificativas adicionais. Para justificar isso, é necessário que o plano seja não apenas tido como certo, mas deve-se também assegurar que o plano é mesmo esse que se tem em mente. E agora eu trago, então, o que brevemente disse na primeira resposta ao Jairo: “Vc sempre estará em pé de igualdade quanto a atingir essa noção, dado que ateus e religiosos dispõe do mesmo aparato intelectual. (…)”. É claro, esse argumento pode e deve ser avançado, e eu já fiz isso no meu blog. Em suma, ainda que vc queira referir-se ao plano divino, é muitíssimo complicado justicar que o plano é de fato o que se tenta impor. Porque, exceto se a revelação for aventada, então há que buscar-se a mensagem divina em algum outro lugar. E isso deságua no direito natural – que baseia-se  na observação de como o universo apresenta-se para nós – cuja justicativa última volta-se ao plano divino, sendo tautológica nesse sentido. Ainda, sobre isso, devo mencionar, ainda que en passant a já centenária falácia naturalística: do fato de que a natureza seja (ou pareça) assim, disso não se segue que as coisas devam ser assim.

Como eu disse, concordo que o ateísmo é niilista. Isso significa que a vida, desde essa perspectiva, é um eterno reconstruir, um eterno adaptar-se, tendo como foco único um sentido subjetivo para a vida. Em essência, buscando em si mesmo – e não me ocorre outro termo – a motivação para a felicidade. Quando eu disse que era um “niilismo mais frouxo”, qualquer viés pessimista dado a isso soa mais como uma manifestação de depressão do que propriamente como um argumento filosófico. Ainda que eu não possa afirmar se Nietzsche assume esse viés. E, finalmente sobre essa questão de sentido, reproduzo também o que eu havia dito naquela primeira resposta: “Só que ao supor um sentido objetivo para a vida vc cai num problema sem solução (o que mostra que essa é uma suposição impossível). Afinal, se todos morremos e tudo termina, quando chegaria a salvação? E mais, por que preocupar-se com isso afinal se tudo acaba mesmo? Caso contrário – supondo a vida eterna – uma vez obtida a salvação, receberemos então carta-branca do Todo-Poderoso para fazermos o que der na cabeça por toda a eternidade? Cadê então o “fundamento ontológico da moral objetiva”? Ou somos então todos Sísifos, empurrando a pedra montanha acima para vê-la rolar morro abaixo, e novamente empurrá-la para cima, indefinidamente, sendo a salvação como a cenoura na frente do burro?”

Por ora, essa é minha justificativa à indefensabilidade e minha opnião sobre a questão público-privado.

[]s,

Nypoa

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Uma resposta para Religião e a Relação Público-Privado

  1. Oi Nypoa! Acabei de acessar o texto, agradeço também a disposição pelo debate!
    Forte abraço
    Francisco

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