Cigarro, Pecado e Salvação

Parei de fumar. Ou pelo menos eu acho. Esse “hábito”, introduzido pelos indíos, seres sempre em paz e em harmonia com a natureza, se não fizesse mal, seria maravilhoso. Exatamente agora ainda estou em estado de penitência. Ou, se alguém preferir, estou pagando pelos meus pecados. Ou pelo meu pecado de ter começado – e continuado – a fumar. Vou em busca da salvação, tendo a academia como minha igreja… Aliás, minha eterna igreja, exceto que agora o pecado vai ficando longe. E a salvação será aquele dia em que eu terei tanta vontade de fumar como hoje eu tenho vontade de comer areia. Um estado de graça plena. Aliás, o sonho de todo fumante não é parar de fumar. É o de nunca ter colocado um cigarro na boca e de poder ver alguém fumando e sequer poder imaginar porque esse sujeito faz isso. Exatamente o que eu sentiria se visse alguém comendo areia.
Interessante que essa minha analogia, pelo menos na minha cabeça, funciona com o cigarro. Mas não consigo imaginar as noções de pecado e salvação em seus contextos originais. O problema não é o pecado. De fato, ele é a solução. Pois, como disse Al Satanás Pacino no (meu) cult “O Advogado do Diabo”, “I am a fan of man!!!” O problema é a salvação. Viver seria como estar em eterno e infernal estado de abstinência de nicotina – ou de pecado, originado de algo pouco claro. E o grande problema é justamente o ocaso: o que, quando e como seria este estado de graça religioso chamado de salvação?
No caso do cigarro, pecado, penitência e salvação são partes claras, imagináveis, atingíveis e, principalmente, a salvação pode ser gozada pelo sujeito que se salva. Mas no caso religioso, o que seria exatamente o gozo pelo atingimento do estado de salvação? O primeiro problema que grita aqui é que não há como saber se esse estado de gração foi atingido. Parece que, em vida, estaríamos sempre em penitência fugindo do pecado como o diabo da cruz. Deve então ser após a morte, o que supõe que haja algo aí e, mais problemático ainda, que haja continuidade da consciência. Bastante esquizofrênica essa hipótese, eu diria. Prá dizer o mínimo.
Não lembro bem quem disse que um sujeito religioso pode ser comparado a um fumante. Bem, eu tô fazendo a minha parte.
[]s,
Nypoa

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